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Críticos de cinema alertam sobre imediatismo e pressão na internet

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LEONARDO NEIVA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A crítica de cinema na internet tem como vantagem permitir o uso de diferentes formatos e aproximar o crítico do leitor, mas deve tomar cuidado para não ser superficial ou imediatista e nem sucumbir a pressões de usuários.

Essas foram algumas das conclusões a que chegaram críticos de cinema que debateram o papel da profissão na era virtual, em evento na tarde desta quarta-feira (25).

O evento é parte do 1º Fórum Mostra-Folha, organizado pelo jornal Folha de S.Paulo em parceria com a 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

O crítico do site Omelete, Marcelo Hessel, colocou em dúvida a capacidade da crítica na internet de alimentar discussões duradouras. Segundo ele, espectadores acabam criando grupos restritos dentro de sites e fóruns que muitas vezes geram mais debates do que o texto de um jornalista.

Ele também afirmou que a crítica brasileira possui um caráter imediatista e superficial. "Na internet, tudo se consome muito rápido. A crítica brasileira tem uma orientação de consumo muito forte, herdada dos Estados Unidos, que se baseia na distribuição de cotações positivas e negativas. Na verdade, ela precisa se distanciar do filme, pensar mais, contextualizar."

Hessel classificou a crítica atual entre dois grupos: os impressionistas, que buscam relatar uma experiência pessoal com o filme, repleta de adjetivos e relatos individuais, e os legistas, que procuram dissecar grande parte dos aspectos técnicos e narrativos de um filme. "Esses dois caminhos não têm sido suficientes", disse.

Para a repórter da revista "Continente", Luciana Veras, a crítica não pode se ater apenas ao filme e deve construir pontes com outros temas, como o contexto social contemporâneo e a obra passada do diretor.

Segundo ela, o trabalho do crítico, em qualquer plataforma, é oferecer um determinado viés sobre uma obra, que deve ter uma boa base argumentativa, mas que também demonstre muito da vivência do profissional.

"A pessoa deve colocar um pouco de tudo que leu e viu em sua trajetória nas críticas que escreve. Não é só o que a obra lhe provoca, mas também o que ela significa no contexto de hoje", afirmou.

Já a crítica independente Andrea Ormond reforçou a característica pluralista da internet. De acordo com ela, o acesso mais fácil aos filmes e a locais de debate fez com que nichos e núcleos específicos se formassem naturalmente, aproximando as pessoas do cinema sem a necessidade de um orientador.

Ela também apontou para o fato de que críticos que começaram em blogs e sites sofreram um forte processo de deslegitimização de seu trabalho, mas que com o tempo assumiram posição de credibilidade próxima à de críticos consagrados de veículos impressos.

O crítico da Ilustrada Inácio Araújo falou sobre o excesso de informações disponíveis atualmente na internet. Segundo ele, se, por um lado, existe a possibilidade de ter à mão arquivos que antes não se tinha, por outro, há dificuldade para escolher entre tanta informação.

Araújo apontou também para o problema que há para se armazenar tanta informação. "Eu mesmo sou uma besta tecnológica. Salvei um livro que escrevi no meu notebook e em um drive externo. Em um certo dia acabei deixando os dois juntos, e ambos foram roubados", contou.

O crítico, que mantém um blog sobre cinema, disse ainda que a internet traz a possibilidade de uma escrita mais informal, "como se estivesse falando com um amigo", diferente da solenidade de um artigo de jornal.

HATERS

Os participantes da mesa também comentaram o momento de polarização no país em relação à arte, no qual têm surgido casos de fechamento de exposições e censura de obras por suposto conteúdo inapropriado. Eles relataram ter sofrido também com a intolerância a respeito de suas opiniões sobre determinadas obras.

Inácio Araújo relembrou o caso de uma crítica negativa que escreveu falando de um documentário sobre o Corinthians. "Logo apareceram 15 mil comentários me detonando e falando 'não se mete com o Timão'".

Segundo Hessel, o problema da internet é ser um espaço no qual as pessoas se preocupam menos em debater e mais em ratificar a própria opinião. Para ele, o trabalho da crítica nesse contexto deveria ser alimentar nas pessoas a vontade de discutir.

Para Andrea, independentemente da postura agressiva de alguns leitores, é preciso que os críticos demonstrem amar o cinema e ter a vontade de que os filmes sejam bons. "Faz parte da crítica ser uma tomada de consciência, uma posição pessoal, é um fenômeno intrínseco à arte. Mas uma crítica persecutória não é crítica, é uma degeneração", afirmou.

Os debates do Fórum Mostra-Folha acontecem até sexta-feira (27), no Itaú Cultural (av. Paulista, 149), e têm entrada gratuita, sem necessidade de inscrições. Veja aqui a programação completa.

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