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"Madri subestimou poder do nacionalismo", diz catalão influente líder de partido de direita

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DIOGO BERCITO

MADRI, ESPANHA (FOLHAPRESS) - Um dos defensores mais enérgicos de que a Espanha destitua o governo regional da Catalunha em resposta aos anseios separatistas deste é justamente um catalão: Albert Rivera, 37, líder do influente partido de centro-direita Cidadãos.

Peça fundamental na formação do governo atual do Partido Popular, do premiê Mariano Rajoy, ele pediu repetidas vezes que o Artigo 155 da Constituição fosse acionado --o que ocorreu no último sábado (21).

Essa medida deve ser aprovada pelo Senado na sexta-feira (27) e acarretará a cassação do poder do presidente catalão, Carles Puigdemont, e a antecipação das eleições regionais.

Rivera critica a condução das negociações com a Catalunha pelo governo central. "Perdemos muito tempo com cartas, enviando fax", afirma, em referência à longa troca de missivas públicas entre Rajoy e Puigdemont.

"O governo atual e o de José Luis Zapatero [2004-2011] foram os que mais subestimaram o poder do nacionalismo, de propaganda e de comunicação. Não deram importância enquanto crescia o nacionalismo catalão."

O fato de Rivera ter nascido em Barcelona torna sua crítica ainda mais incômoda aos ouvidos dos partidários da secessão.

A família dele ainda vive no entorno da cidade. Em setembro, a loja de quitutes de sua mãe foi pichada com a mensagem "Cidadãos, esta não é a sua terra nem a sua luta".

"Eu sei o que é ser um catalão que quer ser espanhol na Catalunha. Sei o que é ser ameaçado de morte, ter a família ameaçada, ter que andar com segurança", afirma à Folha no Congresso dos Deputados, em Madri.

"O nacionalismo está gerando uma ruptura da convivência. Essa é uma ideologia que evidencia o distinto, o diferente. O paradoxo é que, na Catalunha, os dissidentes, os que não apoiam o independentismo, são maioria. Somos dissidentes em nossa própria terra", diz Rivera.

Ele compara a crise catalã com o populismo da ex-candidata da direita nacionalista Marine Le Pen na França e com o presidente dos EUA, Donald Trump.

"Seremos mais altos, mais bonitos, teremos mais dinheiro. Não deixa de ser uma solução mágica", diz, em referência à plataforma de candidatos de perfil populista.

"O que surpreende na Catalunha é que isso aconteceu [essas promessas encontraram eco] em uma sociedade próspera. Foi uma espécie de revolução pós-moderna de celulares, fotos e propaganda."

'RESET'

A Catalunha é uma região espanhola já dotada de alguma autonomia. Mas o projeto de independência tem ganhado força e culminou em um plebiscito em 1º de outubro. Considerado ilegal por Madri, teve 43% de participação e 90% dos votos no "sim".

Rivera foi um dos primeiros políticos a exigir que o governo de Rajoy freasse os independentistas. Quando ainda se falava em convencer o presidente regional Puigdemont a voltar atrás na separação, o Cidadãos fazia campanha pela ativação do Artigo 155.

Esse artigo da Constituição prevê intervenções pontuais na autonomia de uma região para forçá-la a abandonar um curso considerado ilegal pelo governo central.

"Esse processo não terá fim até que haja um 'reset' institucional", diz Rivera. "Mas o objetivo não é a suspensão sem prazo, para sempre. É para recompor a democracia. Temos que devolver a voz ao povo catalão para que escolha suas instituições. Acreditamos que em janeiro vamos às urnas."

O risco, para parte do governo central, é que os separatistas ganhem ainda mais força nas eleições antecipadas --a princípio, só haveria pleito no fim de 2019.

"Vejo o contrário. Eles têm perdido força", afirma o líder do Cidadãos.

Eleitores separatistas podem ser convencidos, acredita ele, pelas derrotas das últimas semanas: mais de mil empresas deixaram a comunidade autônoma desde o início de outubro, e a União Europeia declarou não reconhecer uma Catalunha independente.

Há também outra perspectiva desalentadora para a liderança separatista. Caso o presidente regional Puigdemont vá adiante na declaração de independência, desafiando Madri, deve ser acusado de rebelião --o que, no país, rende 30 anos de prisão.

A reportagem pergunta a Rivera se tal cenário não teria impacto muito severo na percepção popular."O Ministério Público tem a obrigação institucional de processar os delitos. Não é uma opção."

Puigdemont insiste em que a crise seja resolvida com o diálogo. "Mas o limite é a lei", afirma Rivera.

"Você me leva a um quarto e me diz 'ou me dá o que quero, ou explodo esse lugar'... Não posso aceitar a chantagem como método. Eles sabem que estão começando a perder a batalha e apelam à palavra mágica: diálogo."

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