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ATUALIZADA - Viúva de soldado critica frieza de Trump

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SILAS MARTÍ

NOVA YORK, EUA (FOLHAPRESS) - "Ele me fez chorar ainda mais. Tive raiva de seu tom de voz. Ele não conseguia se lembrar do nome do meu marido. Ouvi-o gaguejar ao tentar dizer o nome. Isso foi o que machucou mais", disse a viúva do sargento La David Johnson, sobre o telefonema de condolências que recebeu do presidente Donald Trump.

"Ele deu a sua vida pelo país, e você não é capaz nem de se lembrar do seu nome?"

Em entrevista à rede ABC, Myeshia Johnson, que perdeu o marido num ataque do Estado Islâmico a forças locais e dos Estados Unidos no Níger há três semanas, deu novo fôlego a mais uma polêmica que abala a Casa Branca.

Logo depois que a entrevista foi ao ar, na manhã desta segunda (23), na primeira manifestação pública da viúva desde a confirmação da morte dos militares, Trump reagiu às acusações num tuíte. "Eu tive uma conversa respeitosa com a viúva do sargento La David Johnson e falei seu nome desde o início, sem hesitação", disse o presidente.

Sua versão, no entanto, contrasta com outros relatos.

No carro com a viúva quando Trump fez a ligação, a deputada Frederica Wilson, uma democrata da Flórida, ouviu a conversa e disparou, na semana passada, a mais nova onda de críticas ao presidente ao revelar detalhes de seu discurso. Trump teria dito a Myeshia que o soldado "sabia no que se alistara, mas quando isso acontece, dói".

Wilson atacou o presidente por faltar com respeito à família da vítima e disse que a emboscada no Níger seria o "Bengazi de Trump", em alusão ao ataque na cidade líbia que matou quatro soldados americanos há cinco anos.

O presidente rebateu a congressista, que chamou de "maluca", numa série de tuítes ao longo dos últimos dias, dizendo que ela havia inventado suas palavras e que ouviu a conversa "muito pessoal" sem autorização.

Myeshia Johnson afirmou, no entanto, que o relato da deputada estava "100% correto" e que não haveria motivos para que inventassem uma outra versão dos fatos.

O episódio tem um peso ainda maior pelo fato de La David Johnson ser o único negro entre os quatro militares mortos --não houve questionamentos sobre a fala do presidente com os parentes de outras vítimas do ataque.

Sua viúva, grávida de seis meses do terceiro filho do casal, ainda exigiu detalhes do governo sobre as circunstâncias de sua morte. O corpo do sargento foi encontrado horas depois e a uma distância de mais de um quilômetro dos demais, sublinhando uma série de dúvidas sobre a ação no Níger, onde há agora mil militares americanos.

"Quando vieram à minha casa, só disseram que houve uma troca de tiros e que ele morreu", disse Myeshia. "Toda vez que pedi para ver meu marido, diziam que eu não poderia ver o corpo. Não me deixaram ver. Não sei o que está dentro daquela caixa."

Outro ponto é que a gafe mais recente de Trump vem no rastro de uma crítica que fez a Obama e outros presidentes numa entrevista na semana passada, quando disse que ele havia ligado para as famílias de "virtualmente" todos os mortos em combate desde que venceu a eleição.

Sua afirmação foi logo desmentida por uma reportagem do site Roll Call, que revelou que logo depois da entrevista assessores da Casa Branca pediram uma lista de mortos neste ano e contatos de suas famílias às Forças Armadas.

Desde o início da crise envolvendo a reação de Trump a mortes de militares, houve uma série de manobras da equipe do presidente para conter os estragos, entre elas um discurso emocionado de seu chefe de gabinete, John Kelly, que defendeu o teor de sua fala e contou que havia aconselhado o republicano.

Kelly, no caso, perdeu um filho em combate no Afeganistão há sete anos e pareceu, num primeiro momento, reverter os danos do episódio.

Mas o fim de semana reacendeu a controvérsia com uma entrevista de John McCain, senador republicano veterano da Guerra do Vietnã, que criticou o fato de os ricos nos EUA nunca lutarem nas guerras, às vezes por motivos banais de saúde, numa alusão clara a como o próprio Trump evitou ser recrutado para o Vietnã quando jovem.

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