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Medo e depressão marcam pós-tragédia em Mariana

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CAROLINA LINHARES, JOSÉ MARQUES E AVENER PRADO, ENVIADOS ESPECIAIS

MARIANA, MG (FOLHAPRESS) - "Passarinho na gaiola" tem sido a expressão preferida dos moradores de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo para descrever sua nova vida em Mariana (a 122 km de Belo Horizonte) desde que esses vilarejos rurais foram destruídos pelo rompimento da barragem de Fundão, operada pela Samarco, em 5 de novembro de 2015.

Dois anos após a maior tragédia ambiental do país, a mudança dos atingidos para a zona urbana do município provocou casos de depressão e abuso de remédios, hostilidade por parte da população e incerteza sobre a possibilidade de retorno ao antigo modo de vida em novas vilas previstas para serem erguidas.

A inauguração da nova Bento Rodrigues é aguardada para março de 2019, mas o terreno nem sequer foi regularizado. Com 69 anos, Henrique Bretas só conseguiu realizar o sonho de voltar a Bento, que fica a 23 km da sede, quando morreu. Foi enterrado em setembro passado na igreja Nossa Senhora das Mercês, situada no alto da antiga vila rural, onde a lama da Samarco não chegou.

O restante tem que conviver com discriminação de moradores que os culpam pelo desemprego de 25% na cidade, que dependia economicamente da mineradora, cujas atividades estão suspensas e sem prazo de retomada.

"Tem dia que minha menina fala: 'Pai, eu quero voltar para o Bento'. Eu falo que não tem Bento mais. Ela responde que quer ir para outro lugar, não quer ficar aqui. Isso dói na gente", diz Expedito da Silva, 46.

"Você fica sofrendo por dentro em ver as pessoas sofrendo e não ter o que fazer", completa. Ele, a mulher e quatro filhos vivem juntos em Mariana. Para manter a família, ele trabalha no transporte de carvão e na apicultura.

"Isso é que é a tristeza. Ser tão acolhido num momento e hoje se sentir prisioneiro por estar lutando por direitos."

Atualmente, as famílias de Bento e Paracatu vivem espalhadas por Mariana em 303 imóveis alugados pela fundação Renova, entidade bancada pela Samarco e suas donas, Vale e BHP Billiton. Também foram inaugurados escola e posto de saúde que atendem somente a população dos povoados rurais.

A fundação tem direção independente, mas seus programas têm que ser aprovado por um conselho curador, formado por representantes das três mineradoras.

O processo de adaptação é gradual. Ainda se acostumando com o novo ambiente, diferentes atingidos tiveram que mudar de casa dentro da cidade. Terezinha Quintão Silva, 51, por exemplo, trocou três vezes.

"Os vizinhos eram muito barulhentos", diz. Ela mora com a filha e trabalhava em Bento no bar de coxinhas da irmã, que foi destruído.

Ao longo dos 650 km onde passou, do interior de Minas ao litoral do Espírito Santo, a lama matou 19 pessoas, interrompeu o abastecimento de água, devastou as margens dos rios e arrasou vilas e fazendas. Segundo o Ibama, foi o maior vazamento de rejeitos minerais do mundo.

"O que eu mais sinto falta é das minhas galinhas e da minha lenha. Eu queria ter um fogão a lenha", diz Maria do Carmo, 56, ex-moradora de Paracatu.

Reunida com outras senhoras atingidas, começam a especular sobre a reconstrução de suas casas:

- Tem que ter fogão a lenha.

- Comida de fogão de lenha é mais gostosa. Não esfria, fica quentinha.

- Vera, nunca vai ser igual.

- Ah, vai sim! Porque eu lutei e agora quero ela do mesmo jeito.

A prosa ocorre na Casa dos Saberes durante um lanche, logo após o grupo de senhoras visitar o Museu de Arte Sacra de Mariana -tudo organizado pela Renova.

A casa com diversos ambientes, cozinha ampla, quintal e fogão a lenha foi alugada pela fundação para ser um espaço de convivência e realização de atividades religiosas, como coroações e encontros de irmandades, já que a principal igreja de Bento foi completamente destruída.

Vera Lúcia da Paixão, 62, gostou do passeio, mas disse não ver a hora de "ir para a casa", referindo-se ao reassentamento. "Estou doida pra dar tchau pra vocês. Vou passar um ano sem vir a Mariana."

A percepção entre os moradores, compartilhada pelos profissionais de saúde mental, é a de que os idosos são os que mais sofrem com a nova rotina imposta a eles. Sem as interações sociais de quem trabalha ou estuda e, principalmente, sem a convivência com a terra e os vizinhos, não lhes restou muita coisa.

Joaquim Zeferino Arcanjo, 73, conta que no começo da manhã já tinha tirado o leite, separado os bezerros e cortado capim. "Saía a cavalo ou de moto, juntando a criação. Agora não faço nada, só passeio pela rua afora, fazer o quê?", questiona.

"Aqui parece que é bom, a casa é muito boa, parece que eu estou bem, mas no meu pensar eu estou mal", diz. "Porque o bom é o que é seu, nunca gostei de nada dos outros. Hoje estou dependendo."

"Tem gente que eu não vi até hoje depois da tragédia. Está tudo esparrodado, um aqui, outro ali", diz Antônio Alves, 72, antes adepto dos encontros com os colegas no bar e na igreja. "Era sossegado. Todo dia a gente via a turma."

'PÉ DE LAMA'

Quando ainda tinham que conviver com outras crianças em uma escola da cidade, não eram poucos os atingidos que voltavam para casa chorando por serem chamados de "pé de lama".

Para a diretora Eliene Almeida, o conflito foi uma reação dos alunos da cidade de Mariana que, dividindo o espaço com os novatos da área rural, não recebiam a atenção, as doações e a visibilidade dadas às crianças atingidas.

"No momento do rompimento, chegava muita coisa para os meninos de Bento e Paracatu: brinquedos, materiais, presentes. Um dia até desceu um Papai Noel de helicóptero. E não contemplava os meninos da outra escola que ficavam enciumados, claro, são crianças."

Os traumas fizeram a procura por tratamento aumentar. A rede de saúde mental de Mariana registra uma média de 500 atendimentos todo mês só entre a população atingida pelo rompimento.

Em relação aos serviços de assistência social do município, houve aumento de 197% na demanda entre 2015 e 2016.

Prevendo a explosão de casos, Sergio Rossi, um dos coordenadores da rede de atenção psicossocial de Mariana, elaborou, ainda em 2015, um plano de ação que previa mais profissionais e recursos.

Foi definido que, embora custeada pela Samarco (posteriormente Renova), a nova equipe médica seria cedida ao município e ficaria sob a gestão da rede SUS -sem ingerência da empresa nos atendimentos. Segundo Rossi, porém, tanto a mineradora quanto a fundação tentaram, sem sucesso, obter dados dos pacientes.

"Houve tentativa de chamar os profissionais para discutir situações específicas dos atingidos ou exigir que apresentassem laudos psicológicos para obter o direito que pleiteavam", disse. A Samarco diz desconhecer o caso.

A situação foi relatada ao Ministério Público Estadual em Mariana, que passou a investigar também as condições de trabalho dos 26 profissionais de saúde que cuidam especificamente da população atingida.

Médicos, enfermeiros, psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais chegaram a ficar sem contrato por um período de 15 dias e tiveram os salários reduzidos, segundo Rossi, quando o custeio do serviço passou para a Fundação Renova.

A entidade afirma que houve pagamento retroativo pelo período sem contrato e que os salários estão equiparados aos pagos pelo SUS.

"Trabalhamos com o resgate da identidade e do pertencimento das comunidades nesse novo espaço", diz a psicóloga Maíra Carvalho. Os atingidos apresentam quadros depressivos, ansiosos, isolamento social e até abuso de medicação, álcool e drogas.

A hostilização que sofrem de moradores da cidade, avalia Rossi, segue a lógica do racismo, em ações cotidianas "da fila do banco ao banco da igreja". "A paralisação da Samarco gerou um impacto econômico e é preciso explicar para uma população desempregada que os atingidos não estão recebendo um benefício, mas uma reparação", diz.

"Você sai de manhã para comprar um pão, chega na padaria e escuta os comentários: 'o pessoal de Bento é encostado, vagabundo, a Samarco paga tudo pra eles'", conta Joelma Souza, 27.

"A Samarco não paga tudo, não, eles nos dão o que é nosso direito. É obrigação deles."

Na noite em que conversou com a reportagem, ela inaugurava sua barraquinha de lanches em uma feira de rua de Mariana. Em Bento, se dividia entre um emprego pela manhã e sua lanchonete à noite -perdeu ambos.

Por orientação de um psiquiatra particular, Joelma chegou a tomar antidepressivo para controlar ansiedade, crises de choro e compulsão por comida, mas resolveu parar por conta própria.

"Isso não é vida, não. Eu não nasci pra tomar remédio. Nasci pra brilhar e correr atrás do que é meu."

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