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Crítico de Macron, Édouard Louis, revelação francesa da literatura, fica fora de comitiva do país

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MAURÍCIO MEIRELES, ENVIADO ESPECIAL

FRANKFURT, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Primeiro, Eddy Bellegueule queria salvar Eddy Bellegueule -da violência, pobreza, homofobia. Seu corpo, nunca soube bem por que, resolvia fazer gestos de menina.

Depois, resolveu matá-lo. Eddy era um nome espalhafatoso, "de pobre", pouco adequado ao rapaz que estudava ciências sociais na École Normal Supérieure -quando o escutava, ouvia junto palavras como "viado". Mudou-o então para Édouard Louis.

Louis é uma das grandes revelações da literatura francesa contemporânea -e, sob a tutela do poderoso agente literário Andrew Wylie, acaba de ganhar o mundo com "En Finir Avec Eddy Bellegueule" (acabar com Eddy Bellegueule) e "Histoire de la Violence" (história da violência).

No Brasil, o primeiro livro sai ano que vem pela Planeta.

Ele é um dos autores que circula por esta edição da Feira do Livro de Frankfurt, que acaba no domingo (15), e tem a França como país convidado.

Mas o autor não está aqui a convite de seu país. Foi trazido por sua editora alemã. A explicação? Para ele, que reclamou em um evento, são as críticas contundentes que faz ao governo Emmanuel Macron.

"A mídia construiu a ficção de que Macron era nossa salvação da extrema direita. Mas a política não acontece em um só dia. Sabemos, quase cientificamente, que pessoas como Marie Le Pen ficam mais fortes por causa da pobreza e a humilhação criada pelos super-liberais como Macron."

O autor afirma ter experiência. Hallencourt, a cidadezinha pós-industrial onde nasceu, deu 70% de seus votos à extrema-direita na última eleição. "Estou orgulhoso de não ter sido chamado."

Desde que estourou, Louis, 24, tem encarnado o papel de enfant terrible, escrevendo criticas duras nos jornais.

"Nossa escolha foi para expressar as opiniões da sociedade de forma ampla e sem censura. Estamos felizes que ele esteja aqui. Mas queríamos autores que tivessem livros saindo na Alemanha na época da feira, provavelmente foi esse o caso dele", explica Louis Presset, vice-comissário da missão francesa em Frankfurt.

Dizer a verdade é tudo o que Louis quer. Ao estilo de Karl Ove Knausgard, o francês faz autoficção. Em "Eddy Bellegueule", conta sua vida numa cidade conservadora e violenta, sendo gay. No segundo romance, o estupro que sofreu.

"Percebemos viver em um mundo de ficção. Chelsea Manning e Julian Assange nos mostraram que os governos mentem para nós. Gosto da literatura de pessoas como Karl Ove Knausgard e Svetlana Aleksiévitch. Se o mundo é uma ficção, então a literatura deveria ser um espaço de resistência, de verdade", diz.

O autor não quer escrever, contudo, só uma confissão da intimidade --ele é visto como alguém que experimenta com o romance político, ao retratar, por suas origens, personagens à margem da sociedade.

Quem conversar com Louis, vai ouvir com frequência as seguintes expressões: burguesia, classe trabalhadora, opressão, pobreza, classe.

Em seu texto, está a voz não só de um rapaz educado numa respeitada universidade, mas também o jeito de falar dos moradores de sua cidade. Aí está, diz, um dos pontos importantes de seu projeto literário.

"Tinha a impressão de que a linguagem dos pobres estava fora do campo literário. Mesmo nos escritores que tentaram construir uma linguagem da classe trabalhadora, como Faulkner e Céline --mas eles buscavam essa linguagem de uma perspectiva burguesa. E só ilustrava a distância entre eles e essa linguagem. Minha primeira questão, ao começar, foi pensar no que estava excluído da literatura."

Ao buscar essa linguagem, seu desejo era de que os personagens que retrata pudessem se reconhecer --Louis lembra até hoje como seus pais viam um livro como uma violência, um elo de um mundo que estava contra eles.

O tema principal de seus dois livros é a violência --que seria uma espécie de "fundação invisível" da sociedade. Como falar dela sem criar uma estética da brutalidade, que a exaltasse ou conferisse beleza?

Louis quis fugir de dois caminhos: o da exaltação da pobreza ("Como em Pasolini"), a crença de que os pobres têm uma vida mais autêntica; e o outro, o desprezo pelos pobres, vistos como perigosos e violentos.

"Precisava criar uma terceira via. Tento mostrar que as pessoas são atingidas de forma tão forte pela violência, que elas a reproduzem contra outros. O terrorismo é causado exatamente por isto: um misto de miséria, racismo e humilhação."

Apesar da força de seu relato na intimidade da família, Louis é, como se vê, um representante do romance político. Ele vê alguma oposição entre histórico e estético?

"Para mim só existem dois tipos de romancista: o político e o mentiroso. A questão, portanto, não é saber se a literatura é política, mas por que alguns sentem necessidade de mentir. Aí está de novo o tema da verdade e da mentira."

Falando rápido, o autor ainda volta suas farpas para os privilégios dos escritores:

"Mais de 90% dos escritores vêm de classes dominantes. Por isso, eles não percebem o quanto a política é importante. Quanto mais rico, menos efeitos a política tem sobre você. Eu tinha 14 anos quando meu pai foi ao dentista pela primeira vez, quando criaram o Estado de bem-estar. Se você é parte da burguesia, uma nova lei não muda seu jeito de ir ao dentista."

Para as pessoas que descreve em seus livros, portanto, viver a política não é uma escolha. Louis lamenta o que vê como um paradoxo: quem manda na política não é quem mais sentirá seus efeitos.

SEXUALIDADE

Um dos temas que estão na obra de Louis, claro, é a sexualidade --o menino afeminado crescendo em um ambiente muito machista, envergonhando a família com seus trejeitos, e mais tarde sofrendo um estupro.

"O cara que me estuprou e tentou me matar é gay. E, ao mesmo tempo, é construído sobre a ideologia da homofobia que eu descrevo no livro. Seu corpo está em luta, ele odeia seu próprio desejo", afirma ao longo da entrevista.

Há quem critique, no campo da esquerda, um suposto foco excessivo em temas de raça e gênero em detrimento de uma concepção mais antiga, a classe. Na França de Louis, há mesmo quem diga que é por isso que muitos pobres se alinham à extrema direita. O que o autor acha?

"Meu pai, que era pobre, aprendeu a dominação masculina por ser de uma classe dominada. Na escola, se ele não fosse durão, teria sido destruído. Como Eddy, como eu quase fui. Ao construir essa identidade, precisava rejeitar a escola, insultar o professor e se excluir do sistema de ensino que poderia lhe dar um destino diferente. A dominação masculina coloca as pessoas na pobreza", diz.

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