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Extremo leste de SP é cinturão do latrocínio

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ARTUR RODRIGUES, DANIEL MARIANI, MARLENE BERGAMO E RAPHAEL HERNANDES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "O tiozinho está armado", gritaram os ladrões, antes de um deles atirar em José Reginaldo Barbosa, 66. Dono de um bar, ele na verdade estava de mãos vazias, mas fez um movimento brusco para empurrar a companheira para fora do campo de visão dos bandidos. Foi atingido por um tiro fatal no coração.

O cenário desse crime fica em Lajeado, no extremo leste da capital paulista. O bairro faz parte de uma espécie de cinturão dos latrocínios.

Um quarto dos assaltos seguidos de morte estão concentrados em 7 dos 96 distritos da cidade de São Paulo.

Com 9% da população da capital, Guaianases, Itaim Paulista, José Bonifácio, São Mateus, Lajeado, São Miguel e Vila Curuçá respondem por 24% dos latrocínios em recorte analisado pela reportagem.

O levantamento da Folha de S.Paulo contempla os casos ocorridos em 12 meses, de julho de 2016 a junho de 2017, retirados do site Transparência da Secretaria da Segurança Pública, subordinada ao governo Geraldo Alckmin (PSDB).

A estatística oficial do governo contabiliza um total de 138 casos no período. A reportagem, porém, encontrou apenas os dados relativos a 106 deles --uma das possíveis explicações para isso é que casos registrados inicialmente pela polícia como homicídios podem ter sido depois reclassificados como latrocínios nas estatísticas oficiais.

A reportagem percorreu bairros do extremo leste e encontrou vizinhanças amedrontadas com a ação de ladrões cada vez mais violentos.

O crime que vitimou Barbosa ocorreu em novembro de 2016, em um modesto bar, repleto de enfeites do Corinthians. Conhecido no bairro como "Mala Veia", ele estava ali havia 33 anos, quando o Lajeado era uma região calma.

"Os mesmos bandidos que mataram o 'Mala Veia' fizeram arrastão em três bares naquela noite", diz Rosângela Filomena da Silva, 50, companheira da vítima.

Pela percepção dela, o número de crimes tem crescido. "Os ladrões chegam de moto, roubando celular de todo mundo no ponto de ônibus. Só minha filha foi roubada duas vezes. Também invadiram várias casas na vizinhança."

Segundo o levantamento da reportagem, os latrocínios acontecem principalmente na rua (60%), mas também em residências (15%) e restaurantes e bares (10%).

O latrocínio é considerado por alguns especialistas como algo imprevisível, por ser, de certa maneira, "um roubo que deu errado". Por esse raciocínio, quanto mais assaltos, mais chance de que algum termine com morte.

Diferentemente dos homicídios comuns, com grande incidência em áreas muito pobres, a maioria dos pontos de assaltos seguidos de morte visitados pela reportagem são regiões de classe média baixa na zona leste.

Apenas 15% dos latrocínios aconteceram no centro expandido. Bairros nobres como Pinheiros, Alto de Pinheiros e Morumbi, na zona oeste, e Moema e Campo Belo, na sul, não apareceram nos dados compilados pela reportagem.

Segundo o capitão Rodrigo Cabral, da comunicação social da PM, um dos fatores que pode influenciar nesse tipo de crime é a desigualdade social que ocorre em lugares onde há tanto classe média quanto pobreza extrema.

O perfil predominante entre as vítimas é de homens acima de 40 anos, casados e com maior grau de instrução, enquanto os mortos em homicídios comuns são mais jovens e com ensino fundamental.

POLICIAIS MILITARES

Os policiais militares são as principais vítimas deste tipo de crime. A cada dez mortos em assaltos, um pertence à corporação. Uma das vítimas foi o tenente Milton de Oliveira Fraga, 48, que foi abordado por bandidos quando esperava a filha sair de casa, em uma região de classe média de São Miguel de Paulista.

"Da janela, vi os caras chegarem em volta do carro. Eles falaram para mim: entra agora, senão eu atiro. Fechei a janela, não passaram nem dois segundos, e ouvi o primeiro tiro", diz a estudante Cíntia Fraga, 23, filha do policial.

O tenente estava armado, mas ela duvida que ele tenha tentado reagir. Fraga estava fora das ruas havia vários anos --se aposentara cinco meses antes da PM, onde dava aulas de educação física.

Depois do episódio, Cíntia passou a pagar para um vigilante levá-la de moto do ponto de ônibus até sua casa na volta da faculdade. Ela teme fazer o mesmo trajeto a pé.

Há uma avaliação geral entre os policiais de que, se forem descobertos pelos criminosos, serão assassinados. Por isso, preferem reagir aos assaltos imediatamente.

O coronel José Vicente da Silva, consultor em segurança, afirma que, mesmo sendo melhor atirador que o bandido, o policial se encontra em posição desvantajosa quando é a vítima de um assalto.

"Normalmente, quando há um confronto do policial de serviço, ele está com companheiro, e raramente é surpreendido", diz. "Em um assalto, além de estar sozinho, ele geralmente está muito próximo do criminoso". Mesmo assim, diz o coronel, quando o policial verifica um grande potencial de ser morto durante o assalto, ele pode se ver obrigado a "lutar pela vida".

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