Cotidiano

Professor paranaense adota três irmãos indígenas e diz que preconceito é desafio

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Irmãos indígenas com o pai adotivo. Foto: Sérgio Rodrigo
Irmãos indígenas com o pai adotivo. Foto: Sérgio Rodrigo

Ser pai biológico ou adotivo envolve os mesmos desafios. Que o diga o professor de Matemática e Ciências, Renato Martins, 58 anos, de Cambira, no Norte do Paraná. O sonho dele e da esposa Maria da Penha Martins, 57, sempre foi adotar. Pais biológicos de Sheyla Cristina, de 35 anos, que trabalha como professora em Curitiba, eles deram um novo rumo para suas vidas em 2010, quando os irmãos João Pedro, 16; Isaac, 12; e Maria Izabel, 9; entraram para a família Martins.
Após dois anos na fila de adoção, o casal foi avisado por telefone que havia três crianças de origem indígena - da etnia Tupi Kamaiurá - para serem adotadas em Sete Quedas, no Mato Grosso do Sul. 

“Pegamos estrada no dia seguinte. Já tínhamos preparado roupas para crianças de várias idades e o Renato arrumou o carro com alguns amigos. Estávamos eufóricos”, conta Maria da Penha, que na maioria das vezes, durante entrevista, falou em nome de Renato, devido a timidez do esposo. 

Maria recorda que quando o casal chegou para buscar os irmãos, que estavam sob os cuidados da Fundação Nacional do Índio (Funai), a caçula Maria
Izabel saiu correndo de encontro com Renato e o abraçou. 

“Mesmo sem saber quem ele era, a nossa pequena abraçou o pai. Foi um momento de emoção para todos que estavam no local. Dali em diante soubemos que eles eram nossos filhos. Acredito que tudo estava preparado por Deus”, explica Maria da Penha. 

A adoção faz parte da história familiar do casal. “Minha tia, minha sogra e minha irmã adotaram. É como se fosse uma tradição de família ajudar o próximo”, conta ela. Para o mais velho dos irmãos, o estudante João Pedro, fazer parte da família de Renato é motivo de orgulho. 

“É uma honra ter entrado em uma família abençoada por Deus. Somos muito unidos”, ressalta João Pedro. 

Maria Izabel, João Pedro e Isaac têm mais uma irmã que vive em Sete Quedas com outra família adotiva. Apesar da distância, eles conversam com ela à moda antiga.

“Nada de celular. Eles se comunicam através de cartas e de vez em quando por telefone. Quero que aprendam o valor da escrita. Eles se veem pelo menos uma vez por ano”, acrescenta Maria da Penha, que conta com total apoio do esposo.
Na escola, Maria da Penha conta que a adaptação das crianças teve lá seus percalços por conta da origem indígena. 

“É complicado porque o preconceito existe e, às vezes, vem de quem a gente menos espera. A Maria Izabel sempre foi muito feliz e uma época observei que ela andava nervosa e roendo as unhas. Descobri que havia uma pessoa da escola pegando no pé dela. Mas o amor prevalece sempre”, conta.