Cotidiano

Portadores do transtorno de personalidade contam como é conviver com a doença 

Da Redação ·
​“É como se eu não existisse”, relata a publicitária Patrícia Alvino, 32 anos.
​“É como se eu não existisse”, relata a publicitária Patrícia Alvino, 32 anos.

A agente de viagens Luana Stocco, 23 anos, foi diagnosticada com transtorno de personalidade borderline há pouco mais de um ano. A apucaranense relata que os sintomas começaram a aparecer após um período de estresse intenso, misturado com a baixa autoestima, dia a dia corrido no trabalho e na faculdade. “Eu estava depressiva, irritada e passava semanas sem dormir, além de enfrentar frequentemente pensamentos suicidas”, recorda. 

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Luana buscou ajuda psicológica e psiquiátrica, porém, acreditava estar com depressão. Com ajuda médica, a agente de viagens começou a investigar e observou que alguns comportamentos antigos a diagnosticavam como bipolar, doença facilmente confundida com o borderline. 

Somente após a internação e várias sessões de terapia que veio o diagnóstico correto. “Fiquei muito assustada no começo e fui procurar saber mais sobre a doença, já que nunca tinha ouvido falar”, conta. 

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A impulsividade, sintoma típico da doença, levou Luana comprar exageradamente roupas e sapatos e também extrapolar na comida. A agente de viagens ganhou 30 quilos neste período. O medo do abandono, sintoma comum em borderlines, assombrava Luana. “Como moro com meus avós, sinto um medo sobrenatural de perde-los”, 

O tratamento de Luana é a base de estabilizadores de humor e ansiolíticos, essenciais para esse transtorno. Ela frequenta terapia duas vezes por semana e vai ao psiquiatra a cada 15 dias. Como saiu em março deste ano de uma clínica psiquiátrica, Luana ainda está em fase de recuperação. “Não estou trabalhando, pois faço acompanhamento psicológico e ainda tomo alguns medicamentos fortes. Mas quero voltar logo”, explica. 

Para relaxar, ela procura manter a mente ocupada andando de bicicleta e batendo papo com as amigas. “Invento qualquer coisa para não ficar em casa ociosa”, ressalta.

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“Não sou uma borderline” 
“É como se eu não existisse”, relata a publicitária Patrícia Alvino, 32 anos, sobre o transtorno de personalidade borderline. Diagnosticada em 2009, a apucaranense convive com a doença e criou o blog “Não sou uma borderline”. “Quando parei de tomar os medicamentos em dezembro do ano passado, decidi abrir a página para acompanhar o processo e ajudar outros portadores do transtorno”, reforça. 

Desde os 12 anos, Patrícia sofre com problemas psicológicos.

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A princípio foi diagnosticada com transtorno bipolar. “Só depois de ser internada em 2009, após ter um surto e me automutilar, descobriram o que eu realmente tinha: borderline. Minha vida se resume em antes e depois da internação. Tudo mudou depois que comecei a tomar os medicamentos certos”. 

A publicitária conta com o apoio dos familiares e para relaxar frequenta sessões de terapia, faz aulas de yoga e medita diariamente. “É uma luta constante, já que criamos muita expectativa nas pessoas e nos relacionamentos”, complementa.

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O transtorno
Ciúmes, raiva, baixa autoestima, impulsividade. Esse é o jeito “borderline” de ser. Segundo a psicóloga Rayssa Nogueira, de Apucarana, o transtorno pode causar também manifestações inadequadas de raiva, medo do abandono, intolerância a frustrações, e em alguns casos pode ocorrer automutilação e tentativa de suicídio. 

A psicóloga cita também a sobrevalorização de situações, como por exemplo, situações boas são vistas como excelentes e situações ruins podem ser vistas como péssimas. “Borderliners tendem a ter relacionamentos sempre intensos, confusos e desorganizados, podendo ter o sentimento de vazio e de rejeição, não importando se isso é fantasioso ou real”, explica. 

A causa, de acordo com Rayssa, pode ser de predisposições genéticas ou experiências emocionais precoces, situações traumáticas, ou até fatores ambientais. Os sintomas começam a se manifestar durante a adolescência e se tornam mais frequentes na vida adulta. “Mulheres estão em maior número do que os homens”, sublinha. 

Para Rayssa, o diagnóstico na fase inicial é desafiador, já que geralmente a família vê os sintomas como sinais de rebeldia e instabilidade, típicos da adolescência. 

A profissional diz que algumas vezes o borderline é confundido com doenças, como esquizofrenia ou transtorno afetivo bipolar. No entanto, a intensidade e duração das emoções são diferentes. Por isso, Rayssa reforça a importância de que o paciente seja avaliado por um psiquiatra para que haja o diagnóstico correto e o início do tratamento adequado. 

“O acompanhamento de um psiquiatra é de extrema importância no diagnóstico e na indicação de medicamentos”, enfatiza. 

A psicóloga ressalta que o consumo de álcool e drogas, prejudicam o tratamento, pois, podem potencializar os efeitos da medicação, fazendo com que o paciente perca o controle de seus impulsos. “Com o tratamento adequado os sintomas melhoram consideravelmente. O internamento psiquiátrico é um recurso utilizado quando os sintomas são graves o bastante, colocando em risco a vida do portador e a de seus familiares”, complementa.