Cotidiano

​Polícia abre inquérito para investigar confronto que matou integrantes do MST, no PR

Da Redação ·
Polícia Civil ouviu testemunhas do confronto em Quedas do Iguaçu (Foto: Polícia Civil/Divulgação)
Polícia Civil ouviu testemunhas do confronto em Quedas do Iguaçu (Foto: Polícia Civil/Divulgação)

 Um dos depoimentos iniciais tomados pela Polícia Civil de Cascavel, no Oeste do Paraná, aponta que o primeiro tiro partiu de um integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), no confronto envolvendo o grupo e policiais militares, na tarde desta quinta-feira (7), ocorrido no município de Quedas do Iguaçu. A afirmação foi feita por Pedro Francelino, 33 anos, membro do MST e um dos dois presos após a situação. 

continua após publicidade

“Chegamos lá e um engraçadinho saiu para fora, atirando para cima e o policial revidou”, contou ele à polícia, acrescentando que ele tinha sido convidado pelo MST para um protesto no local. Quando questionado pela delegada Anna Palodetto se então o primeiro teria partido dos integrantes do MST, Francelino respondeu: “É. Foi do rapaz que morreu, que entrou em óbito lá, com o revólver na mão”. Além de Francelino, a polícia prendeu Henrique Gustavo Souza Pratte, de 27 anos. Os dois estão hospitalizados. O conteúdo do depoimento foi divulgado nesta sexta-feira (8) durante entrevista coletiva.

 “O confronto armado ocorreu no momento em que a PM fazia atendimento a uma situação de incêndio florestal”, explicou o secretário da Segurança Pública e Administração Penitenciária, Wagner Mesquita. Foram dois policiais do Batalhão Ambiental e funcionários da Araupel. Em razão do conflito agrário, quatro policiais da Rotam acompanharam o atendimento. O Comando-Geral da PM determinou a abertura de um inquérito policial militar para apurar as circunstâncias. “Já foi oficiado o Ministério Público e a Ordem dos Advogados do Brasil para que acompanhem o desenvolvimento desse processo com total transparência”, disse a chefe do Estado Maior da corporação, coronel Audilene Rosa de Paula Dias Rocha.Paralelamente, a Polícia Civil investiga o caso.

continua após publicidade

Coletiva da Secretaria de Segurança (Foto: Polícia Civil)

“Duas pessoas foram autuadas em flagrante. Uma delas prestou depoimento muito esclarecedor, no qual relata que quando chegaram no local, inclusive com o ônibus, um dos integrantes do Movimento chegou e já efetuou o disparo. As perícias técnicas de necropsia e de local de crime vão subsidiar nossos trabalhos”, informou o delegado-geral da Polícia Civil, Julio Reis.

O delegado-chefe da Divisão Policial do Interior (DPI), Valmir Soccio, foi até a região nesta-sexta-feira (08) para dar apoio a equipe da 15ª Subdivisão Policial de Cascavel. Policias civis do Centro de Operações Policiais Especiais (Cope) também auxiliam os trabalhos policiais na região.RELATO – De acordo com o comandante da Rondas Ostensivas Tático Móveis (Rotam), Aníbal Pires do Amaral Neto, a Companhia de Quedas do Iguaçu foi chamada para prestar apoio à polícia ambiental para verificação de uma queimada. Ao chegarem ao local que dá acesso ao alojamento da Araupel, as equipes se deslocaram a pé para fazer a varredura. 

continua após publicidade

Os policiais ouviram o barulho de uma motocicleta, abordaram o motorista e nada encontraram.  Mas, como ele teria acionado a buzina, a polícia acreditou que poderia haver mais pessoas, indo então até uma curva da estrada e retornando após verificar que não havia mais ninguém. O comandante afirma, então, que foram ouvidos novamente barulhos de veículos que se deslocavam vindos da ocupação, momento em que a polícia abordou uma outra moto e identificou a aproximação de mais três motocicletas, com duas pessoas cada, uma caminhonete GM/S10 de cor escura, com pessoas no seu interior e mais dez na carroceria, além de um ônibus com cerca de 30 pessoas.

Ao avistarem a polícia, eles teriam efetuado disparos contra as equipes. Também de acordo com o depoimento, “devido à injusta agressão” a equipe revidou.Duas pessoas morreram e outras duas ficaram feridas. Os policiais apreenderam um cartucho de espingarda calibre 12 deflagrado, um coldre de arma de porte, uma faca com lâmina de aproximadamente 30 cm, uma capa para transporte de arma longa e roupa camuflada. Um dos mortos foi identificado como Vilmar Bordim, com quem a polícia encontrou uma pistola calibre 380, além de um carregador com oito cartuchos e outro carregador no bolso da calça com 14 cartuchos. 

Com o segundo integrante morto, que ainda não foi identificado, foi encontrado um revólver sem marca aparente calibre 38, com seis cartuchos intactos.O local do confronto é o mesmo que em setembro de 2015 dois funcionários da Araupel e três de uma empresa de segurança registraram um boletim de ocorrência relatando que foram vítimas de disparos de arma de fogo durante um patrulhamento. De acordo com o boletim, ocupantes de uma caminhonete escura, cujo modelo não foi identificado, teriam efetuado seis disparos contra o veículo. Ninguém ficou ferido.

continua após publicidade

DISPUTA – Sobre o imbróglio envolvendo a titularidade da área ocupada pelo MST, o secretário da Segurança Pública ressaltou que é um assunto que, há anos, é tratado pelo Poder Judiciário. “Para o local, não há nenhum mandado de reintegração vigente. O nosso foco foi tratar da segurança pública no município e desde logo recebemos muita informação de crimes graves, de ameaça, porte ilegal de arma, extração ilegal de madeira, cárcere privado, venda de carne furtada, furto de gado, enfim”, enumerou.Esses registros culminaram em dados estatísticos com tendências de acréscimo na localidade, como os de roubos (aumento de 129%), roubos de veículos (+25%), furtos (+36%) e furtos de veículos (+177%), quando comparados os anos de 2014 e 2015. 

“Por conta disso, o foco dos trabalhos da Secretaria da Segurança Pública foi o de fazer o controle da criminalidade na região e evitar que houvesse confronto entre funcionários da Araupel e manifestantes do MST durante esse processo, enquanto o processo judicial se arrasta”, disse Mesquita.

FORÇA NACIONAL DE SEGURANÇA - Para reforçar o esquema de segurança na região foi solicitado o apoio da Força Nacional, que chegou nos primeiros dias de 2016 e permaneceu com efetivo mobilizado até o mês de março. “Nós também aumentamos o efetivo, com tropas do Batalhão de Fronteira (BPFron) e do Batalhão de Policiamento Ambiental. Solicitamos o reforço de polícia judiciária, com a ida de delegados, e estimulamos que empresas e cidadãos de Quedas do Iguaçu registrassem mais ocorrências”, explicou.

 A Secretaria da Segurança Pública pediu ao governo federal prorrogação da permanência da Força Nacional, no início de março, mas até o momento não obteve resposta. “Isso estava trazendo bons resultados, o ambiente estava pacificado, as tensões estavam menores na região, então solicitamos que a Força Nacional permanecesse na região, ajudando no patrulhamento. Como não obtivemos resposta até agora, preparamos um reforço de quase 100 policiais militares para fazer frente aos índices de criminalidade e às notícias de crime que estavam lá ocorrendo”, disse o secretário. Logo nas primeiras ações desse esforço concentrado ocorreram prisões por porte ilegal de arma de fogo e comprovações de extração ilegal de madeira.