Apucarana

Mulheres lutam por mais espaços no cenário político

Mulheres com mandatos se unem em discursos e práticas em busca de reconhecimento e apelam para que mais mulheres entrem para a vida pública

Da Redação ·

Dia 8 de março, muitas homenagens por conta do Dia da Mulher. Mais do que comemorações, mulheres reivindicam o reconhecimento como sujeitos de direito e não como uma subclasse numa sociedade ainda machista. Estruturalmente machista.

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E a luta por mais espaços de poder e de decisão na sociedade faz muito sentido. Embora sejam 52% da população, num país com 522 anos, apenas muito recentemente conseguiram avançar em alguns direitos. 

Por exemplo, as mulheres brasileiras do início do século 19 nem podiam estudar. Só em 1827 tiveram direito ao ensino primário, e mesmo assim não era igual ao currículo masculino. No máximo, aprendiam prendas domésticas. Apenas em 1932 adquiriram o direito de votar. 

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E até 1962, as mulheres casadas precisavam de autorização formal dos maridos para trabalhar. O código civil brasileiro de 1916 via a mulher como um ser incapaz de realizar determinadas tarefas.

Até a Constituição de 1988, a atual, uma mulher que morasse na zona rural, não tinha acesso (direito) a qualquer benefício previdenciário, como aposentadoria. No máximo, ela conseguia meia pensão e, em caso da morte do marido.

Uma das importantes lutas das mulheres, no entanto, é a luta por mais espaços no universo político. Lembrando que o voto feminino só tem 90 anos de história, desde quando entrou em vigor, em 1932, o Código Eleitoral Brasileiro. É uma luta por espaço, por respeito, e contra todas as formas de violência, inclusive de violência política. É o que dizem as deputadas estaduais Mabel Canto (PSC), Luciana Rafagnin (PT) e Cristina Silvestri (CDN), além da vereadora Jossuela Pirelli (PROS), de Apucarana. 

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Jossuela diz que esses 90 anos do voto feminino no Brasil, “colocam em evidência uma parte da história das mulheres e algo importantíssimo a ser lembrado: a vida das mulheres na política nunca foi fácil e, até hoje, é um desafio imenso para elas existirem e resistirem na vida pública”. Segundo ela, que é procuradora da mulher na Câmara de Apucarana, “uma das partes mais importantes do meu trabalho é ampliar os instrumentos disponíveis na sociedade para que as mulheres possam viver uma vida livre de violência. E isso inclui o combate à violência política, que insiste em nos excluir dos espaços públicos para que nossas vozes não sejam ouvidas”, diz.

Já a deputada Mabel Canto, de Ponta Grossa, diz que é preciso festejar as conquistas das mulheres, como o voto. “Mas precisamos avançar muito mais”, adverte. “Eu tenho dito às mulheres: olhem as candidaturas femininas antes de olhar para as outras candidaturas, de homens. Porque tenho certeza que a pauta, o posicionamento, o objetivo das mulheres candidatas refletem algo que as mulheres também acham correto para nosso estado, para nosso pais”, diz. 

A deputada lamenta que a política ainda seja “ambiente de homens”. “Não é fácil ser mulher na política”, diz, falando sobre a violência de gênero na área, um dos motivos que leva as cinco deputadas estaduais no Paraná a terem elaborado um projeto de lei para criar a Bancada Feminina na Assembleia Legislativa. “Quando nos unimos, como nessa bancada, passamos a ter mais voz. Essa bancada vai oportunizar mais espaços que precisamos ocupar, que temos direito a ocupar”, afirma.

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A deputada estadual Luciana Rafagnin (PT), também defende a ocupação desses espaços e reclama o direito das mulheres. “Hoje a Alep tem 26 comissões permanentes. Apenas uma comissão é presidida por mulher. Não temos nenhuma mulher na mesa diretora da Assembleia. Precisamos ocupar esses espaços de poder e espaços de decisão”, diz. Luciana lembra que em todo o país, embora as mulheres sejam 52% do eleitorado, só representam 15% das bancadas federais. “Por que nossa presença é tão pequena ainda nesse universo político?”, indaga a deputada, como forma de provocar as reflexões.

A procuradora da mulher na Alep, deputada Cristina Silvestri (CDN) reforça o pensamento, lembrando que na Alep apenas 10% das cadeiras são ocupadas por mulheres. “É muito pouco”, lamenta. A deputada estava até ontem em Brasília, onde participou do segundo encontro nacional das Procuradorias da Mulher, nas assembleias legislativas. No Paraná, considerado como modelo por ser um dos mais avançados do país, as procuradorias da mulher nas Câmaras de Vereadores só estão constituídas em 128 dos 399 municípios. “Temos um longo caminho de luta pela frente”, avalia.

Segundo ela, embora haja na Alep “um clima favorável” para que as mulheres possam, na próxima legislatura, ter espaços na mesa diretiva e na presidência de comissões permanentes, “a política ainda é um lugar hostil às mulheres. E temos nesse espaço um desafio muito grande, que é a luta pela igualdade”. O projeto para constituir a bancada feminina, informa, deve entrar em pauta da CCJ brevemente. “Precisamos estimular mais mulheres a entrar na vida pública, na política. É o único caminho para a mudança”, diz.

A deputada Luciana Rafagnin lembra que em 2020, foram eleitas em todo o país perto de 9 mil mulheres, contra 47 mil homens. “Mulheres tem capacidade de fazer. Queremos mudar a sociedade. Isso se faz participando e ocupando espaços de poder. Nesse momento que vivemos hoje, por exemplo, momento de guerra. Se fossem mulheres na chefia desses países não estaríamos vendo guerras. Lutamos por mais respeito às mulheres, que a mulher seja vista e reconhecida como sujeito de direito e não como objeto ou subclasse. Precisamos disso para construir uma sociedade melhor para todos”, conclui.

Texto, Claudemir Rauptmann