Apucarana

Apucarana foi o principal foco de resistência à ditadura no PR

Da Redação ·
 Audiência pública relembra crimes do regime militar
fonte: Sergio Rodrigo
Audiência pública relembra crimes do regime militar

A Comissão Estadual da Verdade começou a ouvir ontem, no Cine Teatro Fênix, em Apucarana, ex-presos políticos e familiares de vítimas da ditadura militar no período de 1964 até por volta de 1985. Esta é a segunda que acontece no Paraná, a primeira foi realizada em Foz do Iguaçu e a terceira e última será em Curitiba. Mais de vinte pessoas estão relacionadas para prestar depoimentos aos membros da comissão, que tem como presidente Pedro Bodê, professor de Ciências Humanas da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e como articuladora das audiências Neide de Azevedo Lima, ex-presidente do Movimento Feminino pela Anistia.
 

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O encontro reuniu ainda Antônio Narciso Pires de Oliveira, presidente do Movimento Tortura Nunca Mais do Paraná, e o juiz Osvaldo Soares Neto, de Apucarana, que é presidente da Comissão dos Direitos Humanos dos Magistrados do Paraná, entre outras pessoas ligadas aos direitos humanos e, inclusive, vítimas da repressão.

“A repressão militar foi algo ruim que os setores mais conservadores deste País fizeram para destruir o estado democrático”, disse o presidente da Comissão, Pedro Bodê. Ele lembrou que “foram pessoas como o estudante apucaranense Antônio dos Três Reis de Oliveira, assassinado pelo regime limitar no início dos anos 70, que fizeram sacrifício para ganharmos nossos direitos”.

Para uma plateia composta na sua maioria por estudantes do Colégio Estadual Nilo Cairo, Bodê explicou que a audiência pública instalada em Apucarana visa a busca de experiências do passado e relembrar a história negra deste País. “Uma coisa é ouvir que muitas pessoas foram presas e torturadas, outra é a gente poder ouvir delas a sua própria história de lutas”, declarou. Narciso Pires, que foi um dos líderes estudantis do Colégio Nilo Cairo e também foi preso e torturado, lembrou dos tempos em que Apucarana tinha o movimento estudantil mais forte do Paraná na resistência ao regime militar. Ele participou da luta juntamente com Três Reis de Oliveira e Idésio Brianezi, entre outros. Sua prisão ocorreu já em 1975, na chamada Operação Marumbi, comandada pelo capitão Ismar Romariz.

A ex-presidente do Movimento Feminino pela Anistia, Neide Lima, hoje com 82 anos, ainda percorre o Paraná e o Brasil para colher depoimentos de vítimas do regime militar. Ela, que também foi presa e torturada, diz que no movimento pela anistia conheceu o histórico de luta do estudante Antônio dos Três Reis de Oliveira. “Apucarana foi onde ocorreu no Paraná o maior foco de resistência ao regime e à repressão militar”, disse, destacando o movimento estudantil das décadas de 60 e 70.

A audiência pública promovida pela Comissão Estadual da Verdade, conforme Neide, pretende resgatar a memória desses mártires brasileiros. “Aqui ninguém veio para inventar e se passar de falso herói, mas para relatar o que se passou neste país desde a revolução de 64”, afirmou. “Este é um momento histórico para Apucarana e o Brasil”, acrescentou.

O prefeito de Apucarana, Beto Preto (PT), que aos 7 anos de idade viu seu pai Pedro Preto ser preso pela Operação Marumbi e levado algemado para Curitiba, lembrou dos momentos difíceis que sua família viveu em 1975. “Foi esta famigerada Operação Marumbi que levou à morte pessoas como Manoel Fiel Filho e Wladimir Herzog”, disse, lembrando ainda o assassinato de Três Reis de Oliveira em 1970. “Este é o momento de se passar o Paraná e o Brasil a limpo”, destacou.

Ontem, os primeiros depoimentos foram colhidos de Amadeu Felipe, Narciso Pires, Arno Gissen, Wadecyr Feltrin, Maria do Socorro de Oliveira e Isabel Brianesi. Hoje estão previstos mais 14 testemunhos.