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Quanto da pessoa que você chama de "eu" foi realmente escolhido por você?

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Quanto da pessoa que você chama de
Autor Foto: Divulgação/Magnific

Outro dia me peguei pensando em uma pergunta desconfortável. Dessas que não cabem numa conversa rápida, mas insistem em voltar quando o silêncio finalmente encontra espaço.

Quanto da pessoa que você chama de "eu" foi realmente escolhido por você?

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A pergunta parece simples. Não é.

Quando nascemos, recebemos um nome antes mesmo de aprender a pronunciar qualquer palavra. Pouco tempo depois, recebemos elogios pelos comportamentos "certos", reprimendas pelos "errados", expectativas, comparações e sonhos que, curiosamente, quase nunca eram nossos.

"Esse menino vai ser médico."

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"Essa menina leva jeito para professora."

"Ele é tímido."

"Ela nasceu para liderar."

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Ninguém fazia por mal. Faziam por amor. Ou pelo menos pelo amor que conheciam. Afinal, imaginar o futuro de quem amamos também é uma forma de carinho. O problema é que, sem perceber, começamos a confundir afeto com roteiro.

E talvez seja aí que a nossa primeira versão deixe de ser escrita por nós.

A criança cresce aprendendo que algumas atitudes rendem aplausos, enquanto outras produzem silêncio, decepção ou reprovação. Descobre rapidamente que ser aceito é mais fácil do que ser autêntico. Aos poucos, passa a escolher menos aquilo que faz sentido e mais aquilo que mantém os olhares satisfeitos.

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Quando percebemos, já não somos apenas filhos. Somos o filho responsável. A filha forte. O funcionário dedicado. O aluno exemplar. O amigo que nunca diz não. Personagens que, muitas vezes, sobreviveram tanto tempo que passaram a acreditar serem pessoas.

E a vida segue assim. O trabalho espera que você vista uma versão conveniente de si mesmo. A família, quase sempre com boas intenções, deseja que você permaneça reconhecível. A sociedade distribui modelos prontos de sucesso, felicidade e realização, como se existisse um único molde capaz de servir em milhões de pessoas completamente diferentes.

Não é uma conspiração. Talvez seja apenas medo. Porque toda vez que alguém escolhe um caminho diferente, obriga quem ficou a se perguntar se também poderia ter escolhido outro.

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Talvez seja por isso que tanta gente estranhe mudanças. Não porque elas estejam erradas, mas porque elas lembram que a própria vida nunca foi tão inevitável quanto parecia.

E então chega um dia em que a pergunta retorna.

Quem fez tantas escolhas por mim?

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Mais difícil ainda: quais delas eu continuo repetindo apenas porque me acostumei?

A História guarda uma ironia bonita. Quase todas as pessoas que hoje admiramos precisaram, primeiro, suportar o desconforto de decepcionar expectativas. Não porque desejassem desagradar alguém, mas porque compreenderam que viver exclusivamente para corresponder ao olhar dos outros também é uma forma silenciosa de desaparecer.

Talvez crescer seja isso.

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Não abandonar quem fomos.

Não desprezar quem nos ama.

Mas encontrar coragem para distinguir aquilo que recebemos daquilo que realmente escolhemos carregar.

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Porque existe uma diferença enorme entre honrar a própria história e permanecer prisioneiro dela.

E talvez a liberdade nunca tenha sido fazer tudo o que queremos.

Talvez liberdade seja, simplesmente, voltar a escolher quem somos.

Antes que a vida termine de escrever uma história cuja autoria nunca foi nossa.

E antes de terminar, uma reflexão bônus que me incomodou a ponto de buscar respostas: qual a real importância da história que contam sobre nós? Qual o sentido de tentar agradar quem não sabe o seu lugar nesse mundo e quer determinar o seu? Eles sempre te pintarão com as cores que aprenderam a ver, a magia está que cada um carrega a sua paleta! E olha que eu sou daltônico.

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