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Quando deixamos de ter medo de ser maus?

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Quando deixamos de ter medo de ser maus?
Autor Foto: Freepik

As pessoas são más? Estão perdidas? Ou simplesmente não se importam?

Não sei quando essa pergunta deixou de ser apenas filosófica e começou a aparecer no trânsito, nas casas, nas salas de aula, nas redes sociais e nas discussões políticas. Talvez ela sempre tenha estado ali. O que me inquieta é outra coisa: em que momento deixamos de ter medo de sermos cruéis?

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Hobbes desconfiava do que o ser humano seria capaz de fazer quando nada contivesse seus interesses e medos. Rousseau, por outro caminho, acreditava que havia algo na sociedade capaz de corromper aquilo que em nós poderia ser bom. Séculos depois, Hannah Arendt nos obrigaria a encarar uma hipótese ainda mais incômoda: o mal nem sempre precisa de monstros. Às vezes, basta gente comum que deixa de pensar sobre aquilo que faz e sobre quem sofre do outro lado. Talvez seja este o nosso problema.

O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2026 trouxe um paradoxo eloquente: em 2025, as mortes violentas intencionais caíram no país, mas cresceram formas de violência dentro dos lares, sobretudo contra mulheres, crianças e adolescentes. A rua, em alguns indicadores, tornou-se menos letal; a intimidade, nem sempre mais humana. E há violências que sequer entram nessas estatísticas.

Há o motorista que transforma metros de asfalto em questão de honra. A política que já não admite adversários, apenas inimigos. A escola em que a humilhação vira brincadeira ou conteúdo. A casa em que pessoas que se amam descobrem quais palavras usar para ferir. A internet, esse estranho lugar em que alguém escreve atrocidades para desconhecidos antes do café da manhã. Onde está o amor nisso tudo?

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Talvez esteja soterrado sob uma educação sentimental estranha. Ensinamos a criança a pedir colo, mas esperamos que o adulto não precise dele. Permitimos que ela tenha medo do escuro, mas exigimos que, depois de certa idade, saiba esconder qualquer medo. Então crescemos e aprendemos a dar outros nomes ao medo: controle, ciúme, orgulho, ironia, agressividade, indiferença. Mas o adulto continua tendo medo do escuro.

Tem medo de ser abandonado. De não ser amado. De perder o emprego, o lugar, a razão, a juventude, o poder, as pessoas que ama e, no fundo, a própria vida. E talvez exista aí uma tragédia silenciosa: com medo de perder, apertamos demais. Com medo de sermos feridos, ferimos primeiro. Com medo de que alguém vá embora, tornamos insuportável permanecer. Tentando proteger o que temos, destruímos aquilo que queríamos conservar.

Emmanuel Lévinas nos lembra que o rosto do outro nos convoca à responsabilidade. Talvez por isso seja tão fácil ser perverso quando deixamos de enxergar rostos. O outro vira eleitor, funcionário, aluno, ex-companheiro, vizinho, motorista, perfil, número, problema. E problemas não choram. Pessoas, sim.

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Não sei se as pessoas são más. Desconfio de respostas simples para perguntas antigas demais. Sei, porém, que estamos acostumados à falta de cuidado. Pedir desculpas parece derrota. Mudar de opinião parece fraqueza. Demonstrar afeto virou exposição. Ser gentil, para alguns, quase ingenuidade. Talvez o amor não tenha desaparecido. Talvez apenas tenhamos ficado com vergonha dele.

E talvez precisemos reaprender uma coisa que toda criança sabe antes que o mundo a ensine a esquecer: ninguém atravessa todos os escuros sozinho. A civilização não começa quando deixamos de ter medo da noite. Começa quando entendemos que não precisamos apagar a luz de ninguém para que a nossa pareça mais forte.

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