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Me conte, você tem medo do quê?

Da Redação ·
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fonte: Da Redação

Quando eu era criança eu tinha muitos medos, que hoje percebo, não eram tão bobos quanto faziam parecer. O medo do escuro era sobre a solidão e sobre o desconhecido, o meu quarto ainda era o mesmo, mas nas sombras a minha mente criava a dúvida sobre algo ou alguém estar a minha espreita. Muitas noites eu corria até a cama dos meus pais e, dormia ali mesmo, no chão ao lado da deles, apenas pela segurança de saber que se algo acontecesse alguém cuidaria de mim. Muitas vezes ridicularizado por outros adultos, era acolhido com carinho pelos meus pais, que entendiam que meus medos podiam ser bobos, mas ainda sim eram medos que deveriam ser contidos por eles, que ainda são meu porto seguro. 

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Ao crescer descobri que meus pais também tinham medo, principalmente em relação a mim. O maior medo dos pais era o de “eu não dar certo”. Com 12 anos eu já fazia “Guarda Mirim”, pois precisava aprender uma profissão para ser “alguém”. Após apanhar e ser roubado várias vezes, convenci meus pais que ali não era lugar para mim, mas no ano seguinte estava na EPESMEL, onde com treze anos aprendia a ser um “eletro técnico industrial”, coisa que até hoje não sei ao certo o que era. Aos quatorze trabalhava como auxiliar de eletricista. Com quinze anos era atendente de uma locadora de vídeos, aí sim eu adorava, pois era o “meu lugar”, já que adorava filmes e conversar com pessoas, assistindo e indicando de tudo. Concomitante fui “office boy” de uma livraria. 

Quem me conhece sabe que, dos 15 aos 18 foi uma loucura, tive uma banda, tentei ser ator no Rio de Janeiro, fui cabeleireiro, atendente de Telemarketing, menino do arquivo na Primeira Vara Cível de Londrina e outras dezenas de coisas. E tudo isso por quê? Porque meus pais tinham medo de eu não gostar de trabalhar, pois para o olhar deles, meu interesse era perigoso, já que se distanciava da labuta “comum” a que eles estavam acostumados. Eu gostava de livros, de TV, de música, de cinema... Não há nenhum problema nisso, mas o medo era real para eles. E se eu não me encontrasse? Se eu não gostasse de trabalhar?

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Hoje sou pai e professor, agora os medos são meus sobre meus filhos e alunos. Meus filhos não me procuram na cama, dormem sozinhos desde os primeiros dias de vida, mas sou eu que fico ao lado da cama deles, apenas para os ouvir respirar. 

Vejo em meus filhos o infinito de possibilidades e não quero sejam limitados por nada, pelo medo, pelos outros ou por mim. Ainda que dê espaço, é inegável buscar ver sinais da profissão que exercerão no futuro, como se a ontologia do indivíduo estivesse visível ali, na mais tenra idade. Tenho medo que sofram por não se encontrarem ou que ao se encontrarem, não sejam aceitos como tal. São apenas medos, ainda que tão reais como a escuridão que assombrava o meu quarto. 

Ainda que tenhamos medo, não podemos furtar de nossos filhos a chance de errar muito, ainda que devamos adverti-los do perigo de fazê-lo. Não pense que falo de permissividade tóxica que não estabelece limites e leva aos excessos, mas apenas de um estender de mãos quando fizerem as escolhas erradas. Meus pais tinham medo que eu não trabalhasse, eu temo que meus filhos não estudem, mas ambos tememos porque amamos demais. Cabe a nós apenas ser a mão do lado da cama quando a noite vier, é só disso que precisamos.