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    Manifestações em frente a SESA chocam profissionais

    Manifestações em frente a SESA chocam profissionais
    Foto por CBN CURITIBA
    Escrito por Da Redação
    Publicado em 18.03.2021, 12:21:29 Editado em 18.03.2021, 12:42:34
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    O último final de semana foi marcado por diversas manifestações que se autodefiniam suprapartidárias, mas que trouxeram, em sua mais variada expressão, diversos discursos que indicavam um desejo de romper com as premissas básicas do Estado Democrático de Direito.

    Há alguns anos, professores, historiadores, sociólogos e economistas lidam com um fenômeno controverso que é a existência de pessoas sem formação adequada, sem nenhum tipo de experiência na área e que se valem de “sua própria história de vida” para interpretar a educação brasileira, a economia mundial, para negar fatos historicamente discutidos, comprovados e examinados criteriosamente por estudiosos. Ávidos por encontrar culpados para todo tipo de problema social, buscam culpabilizar indivíduos e valem-se da cultura autoritária para se posicionar como juízes cruéis e destruidores de carreiras a despeito da ética e da moral que tanto dizem defender.

    Para os profissionais já acostumados com essa situação de destruição de reputações, agora surge, para fazer companhia a eles, um novo grupo que, progressivamente, vem perdendo credibilidade, respeito e voz, à medida que são desconsiderados e substituídos pelas correntes de WhatsApp: profissionais de saúde e juristas.

    As manifestações do final de semana são uma amostra dessa situação. Pelo país todo, assistimos a um número pouco expressivo, mas bastante barulhento, de indivíduos que se julgavam aptos a questionar decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) e dos secretários de Saúde dos Estados e Municípios, uma vez que nacionalmente estávamos na quarta dança das cadeiras do Ministério.

    De todas elas, duas me surpreenderam particularmente. A primeira aconteceu no 30º Batalhão da Infantaria de Apucarana e pedia a intervenção do Exército nas decisões do STF; cartazes pediam a retirada (sugerindo o uso de força) de ministros do Supremo. A segunda aconteceu em frente à Secretaria de Saúde do Estado do Paraná (SESA). Neste artigo, vou me ater à segunda manifestação, uma vez que tratarei da primeira na próxima publicação.

     

    Manifestações em frente a SESA chocam profissionais
    Foto por CBN CURITIBA
     

    A foto acima foi retirada de reportagem da CBN Curitiba e mostra manifestantes em frente à SESA na última segunda-feira, 15 de março. Das solicitações feitas pelos manifestantes, destacamos um ataque pessoal ao secretário de Saúde do Paraná, com fotos e dizeres contrários às medidas de enfrentamento adotadas pela secretaria e pelo governo nas últimas semanas.

    É surpreendente perceber que em nenhum dos cartazes há pedidos de compra de vacinas. Obviamente porque isso levaria à necessidade de responsabilizar o verdadeiro culpado pela falta dos imunizantes: o Governo Federal, através de uma administração pífia no Ministério da Saúde. O que restou aos manifestantes foi endossar argumentos defendidos e disseminados em vídeos e correntes de internet, como a exigência do tratamento precoce (como se sua eficácia no tratamento da covid-19 fosse amplamente comprovada e adequada), pedidos pela abertura de hospitais de campanha e fim das medidas que impõem restrição à circulação de pessoas e ao funcionamento do comércio.

    Sobre esse tipo de manifestação, o historiador da Saúde e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Vanderlei Sebastião de Souza (doutor em História das Ciências e da Saúde pela Fiocruz e professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro — PR), afirma:

    “Manifestações como estas expressam o momento político que vive o Brasil, resultado de um negacionismo que se institucionalizou enquanto projeto político e que tem na figura do presidente da República um entusiasta de primeira hora. Esse negacionismo gera a desinformação, cria o caos e desautoriza as recomendações das instituições responsáveis pelo enfrentamento da pandemia, sobretudo das organizações e dos profissionais ligados à ciência e à saúde pública. Esse negacionismo não apenas confunde e divide a sociedade, como coloca os seguidores do presidente contra os gestores que trabalham para conter a tragédia que a pandemia representa para toda a sociedade brasileira. De outro lado, esse negacionismo coloca os interesses do mercado acima da vida humana, banalizando a dor, a morte e o sofrimento que a covid-19 representa na vida de cada um de nós”.

     Adriana Prestes do Nascimento Palu, dentista sanitarista apucaranense, mestra em Saúde Coletiva, servidora pública há 21 anos, deu seu parecer sobre os movimentos, os quais considera uma jogada político-partidária em que há a prestação de um desserviço que retrata um processo de infodemia; em vez de levar informações verdadeiras à população, leva medo, pânico e negação.

    Defensora da saúde, do SUS e da VIDA, Adriana ressalta:

    “Fico sem saber qual palavra usar para definir um comportamento tão negacionista e desrespeitoso. Entendo que cada indivíduo precisa assumir seu papel político na sociedade, o que não implica posição partidária, mas discernimento entre o certo e o errado. Neste caso, um princípio fundamental na sociedade deve se sobrepor a todos outros, a defesa da vida. Pois vida não tem preço! Vida é, fundamentalmente, a essência do ser humano e dos demais seres que habitam o planeta. Aqueles que destroem ou desconsideram esse fundamento contrariam a ética e o próprio ser humano. Tal manifestação não se justifica, pois não há fundamentos ou parâmetros sólidos de evidências científicas que norteiem o tratamento precoce como propõem. Mas tal manifestação retrata a crise que o Brasil vive, muito além da crise sanitária, econômica e social; a crise de valores que desconfiguram a boa política de que precisamos para superar esse momento tão difícil”.

    Num contexto federal de uma política necrófila, é inacreditável que uma parte dos paranaenses não veja o esforço dos nossos profissionais de saúde, culpando as instituições e argumentando que deveríamos ter mais leitos de UTI. O fato é que não deveríamos ter tantas pessoas internadas na UTI com COVID 19. Sabe-se da falta de profissionais de saúde no Brasil e do desgaste que estão passando os que trabalham na linha de frente.

    O médico Doutor Luís Vilela, profissional do SUS e que atua como preceptor na residência em  Medicina de Família e Comunidade em Apucarana, e trabalhador da rede de urgência e emergência de Londrina, nos falou emocionado sobre sua rotina de trabalho diária e o contexto que estamos vivendo:

    “Hoje, 17/03/21, está difícil de falar. Estou na linha de frente da pandemia desde o início. Hoje enxugo as lágrimas de minha filha ao saber que seu querido professor faleceu de Covid 19, uma pessoa maravilhosa que eu tinha grande admiração. Este mês ainda estava cicatrizando a morte de uma colega da linha de frente por Covid 19. Fico aqui me perguntando sobre esse falso dilema entre a vida e a economia. Não existe economia sem vida. Os hospitais estão superlotados, não há espaço e gente suficiente para cuidar de forma adequada dos enfermos que não param de chegar. Estamos angustiados, esgotados e preocupados, pois a situação é cada vez pior. Como diz as diretorias técnicas e médicas dos Hospitais de Curitiba: “é indispensável determinar  lockdown”. Mas, mais do que o decreto precisamos que as medidas prescritas sejam aderidas pela população para que se tornem efetivas. Então, protestos e aglomerações só trazem piora do caos na saúde e postergam a recuperação da economia. Há necessidade de um forte sistema de saúde e de proteção social, e toda solidariedade comunitária. Entendo o clamor pela abertura do comércio, que já foi tão penalizado durante todo esse período, porém, no atual cenário o mais importante é salvar vidas”.

    Nesse contexto, é fundamental que a população como um todo tenha consciência da necessidade de controlar a ação do vírus! A defesa da VIDA HUMANA deve ser nossa pauta comum!

     

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    Camilla Bolonhezi

    Camilla Bolonhezi

    Camilla Samira de Simoni Bolonhezi. Graduada em História pela UEM, é doutoranda em História Política pela mesma universidade. Possui especialização em gestão, organização e orientação escolar, bem como em psicopedagogia clínica e institucional. Trabalha com pesquisas na área de Relações Étnico-raciais, Direitos Humanos e Políticas Públicas. É professora da Faculdade de Apucarana (FAP) desde 2015 e também atua como docente na SEED PR lecionando no Ensino Médio e Fundamental.

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