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Risco da descrença é termos soluções radicais na política, diz líder católico

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POLíTICA

Risco da descrença é termos soluções radicais na política, diz líder católico

ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER, ENVIADA ESPECIAL

APARECIDA, SP (FOLHAPRESS) - Num momento em que "o fisiologismo político leva a barganhas sem escrúpulos", a ideia pode soar sedutora.

Mas não nos deixei cair em tentação e eleger "salvadores da pátria": eis a tônica da nota oficial que a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) lançou na quinta (4), último dos dez dias de sua anual Assembleia-Geral.

"Com o exercício desfigurado da política, vem a tentação de ignorar os políticos, permitindo-lhes decidir os destinos do Brasil a seu bel prazer. Desconsiderar os partidos [...] favorece a ascensão de salvadores da pátria", diz o texto.

Em entrevista, o presidente da principal entidade católica do país, o arcebispo de Brasília, dom Sergio da Rocha, 57, fala sobre riscos que pairam sobre a sociedade: o vácuo político que periga gerar "soluções antidemocráticas", as reformas tocadas pelo governo Michel Temer e a "privatização da fé".

Pergunta - A CNBB pediu cautela com salvadores da pátria. Alguém específico vem à mente?

Dom Sergio da Rocha - Partimos do contexto de crise ética, com todas as denúncias de corrupção levando ao descrédito da política. Compreendemos essa reação, mas sabemos da importância da política na democracia. O risco, quando se cai na descrença pura e simples, é de se ter soluções antidemocráticas, radicais, violentas.

- O que acha dos que se autoproclamam antipolíticos, como João Doria e Donald Trump?

Não é que a gente fuja da questão, mas não nos pronunciamos sobre pessoas ou governos. Agora, não é possível governar uma cidade, um Estado, um país sem uma perspectiva política clara --de alguma maneira dialogar com os partidos. Temos insistido que não basta a negociação entre partidos e governo, [é preciso] sempre escutar as ruas.

- A CNBB critica as reformas previdenciária e trabalhista.

No 1º de Maio, alertamos sobre o risco de perda de direitos trabalhistas. Insistimos no diálogo amplo, mas também nas manifestações [a CNBB apoiou a greve de 28/4], desde que pacíficas. No momento há muita agressividade em redes sociais, nas ruas, nas casas.

- Viraram alvo de ódio ao se posicionar contra as reformas? É natural que qualquer pronunciamento, numa sociedade tão plural, tenha reações das mais diversas [na internet, pulularam comentários como "eles se escondem atrás das classes pobres, mas são podres de ricos" e "comunistas de batina!"]. É o grande desafio de hoje: não responder violência com violência. A gente tem que conservar esta atitude, ainda mais importante no ano eleitoral, de não olhar quem pensa diferente como inimigo.

- Por falar em 2018, qual será a orientação da Igreja para seus membros durante a eleição?

Procuramos orientar sem jamais interferir indevidamente. Primeiro porque a CNBB não tem posição político-partidária. Segundo porque não queremos substituir a consciência de ninguém. Com tantos escândalos por aí, o primeiro tribunal deve ser a consciência do eleitor. Se a gente tivesse um voto mais consciente, daríamos menos trabalho à Justiça eleitoral.

- Em 2010, dom Luís Gonzaga Bergonzini (1936-2012), bispo emérito de Guarulhos, militou contra Dilma. Em 2014, um padre do Mato Grosso fez campanha contra "PT e comunismo". Como a CNBB lidará com situações afins em 2018?

Como instituição, o clero não pode ter atuação político-partidária. Se ocorre, cabe ao bispo local --ao contrário do que se pensa, não é tudo centralizado no papa, muito menos na CNBB-- avaliar o caso.

- Em carta a Temer, o sr. pediu a indicação de Ives Gandra Filho, dono de visões ultraconservadoras (em artigo de 2012, defendeu que a mulher seja submissa ao marido), ao Supremo Tribunal. Crê que, como presidente da CNBB, deveria influenciar esse processo?

A carta foi estritamente pessoal, não uma indicação pública. O que deve ser questionado não é a indicação feita por um cidadão, ou mesmo se fosse uma entidade, e sim a participação da sociedade civil na escolha de um ministro do STF. Como temos visto, o papel do Judiciário é de fundamental importância para a ordem democrática do país.

- O marqueteiro João Santana disse que evitava usar Temer na campanha de 2014 pois eleitores o associavam ao satanismo. Em 1985, FHC teria perdido a eleição à Prefeitura de SP por dar a entender que era ateu. É importante, num país de maioria cristã, que seus representantes o sejam?

Olha, respeitamos muito as opções de cada pessoa no âmbito religioso. Graças a Deus, a postura da Igreja tem sido de profundo respeito pela pluralidade religiosa.

- Inclusive os sem religião?

Sim, também com os que têm postura religiosa diferente. Agora, isso não significa que não consideramos que seja importante a fé, e particularmente a fé cristã. Vivemos um momento em que a fé, para muitos, está relegada ao âmbito privado, uma espécie de privatização da fé. Não podemos admitir isso.

O papa disse em 2013 que viria, mas não vem mais ao Brasil para os 300 anos de Nossa Senhora Aparecida, em outubro. Em carta a Temer, fala da crise e critica "soluções amargas" que afetariam "os mais pobres". Foi uma crítica à atual gestão?

Soubemos em outubro de 2016, quando o visitamos em Roma. Deixou claro que não viria por motivo de agenda.

- Pesquisa Datafolha mostra que os evangélicos já são 30% do país -e que 44% deles eram ex-católicos. Isso preocupa?

Olhamos de modo especial os católicos fora do dia a dia da Igreja. Agora, não quer dizer que as igrejas estejam vazias. Nosso desafio tem sido construir igrejas, dificuldade até para achar locais, e não fechá-las por não tem gente nelas. A preocupação maior não são os que já vivem a fé, ainda que em outras igrejas, mas quem não conhece Jesus. Hoje não é mais como em outro tempo, em que as pessoas eram batizadas pura e simplesmente porque todo mundo era. Elas têm opções, então é importante mostrar como a fé é bonita.

- Uma esquete famosa do grupo de humor Porta dos Fundos mostra um padre penando para reter fiéis atraídos por cultos-espetáculos de igrejas neopentecostais. Há preocupação em modernizar as missas?

Veja bem, é um tema delicado. Temos que entender que hoje não é só a sociedade que é bastante plural. Dentro da própria igreja há uma postura mais diversificada. Uma pessoa busca a missa com mais canto e animação, outra, com maior tranquilidade. Há muita coisa voltada a jovens [como o projeto Jovens Sarados, 'academia para a sua alma']. O ideal seria não haver excessos.

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