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Em viagem a SP, artista chinês Ai Weiwei encanta elite da arte

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Em viagem a SP, artista chinês Ai Weiwei encanta elite da arte

SILAS MARTÍ

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Mas pode fumar isso? Parece de plástico." Ai Weiwei estranhou o baseado enrolado em seda transparente que Zé Celso estendeu a ele nos primeiros minutos de conversa no teatro Oficina. Podia.

Minutos depois, imagens do dramaturgo e do artista mais famoso da China emoldurados por um véu de fumaça branca inundavam o Instagram, engrossando a torrente de selfies que Weiwei não parou de postar desde que chegou a São Paulo, há três dias.

"Esperava aquele homenzarrão bruto, que quebra aqueles vasos antigos, mas ele é leve, suave, delicado. Tem uma pele lindíssima", disse Zé Celso, sobre o mais novo amigo. "É quase um monge budista, mas um monge engraçado, sorridente, uma pessoa rara no mundo das artes, sem nenhuma empáfia, nenhuma máscara."

Sua única máscara, no caso, é o próprio rosto replicado à exaustão nas redes sociais, sempre com a mesma expressão perdida entre o enfado e o riso, hoje um emblema da dissidência política e do ativismo na arte contemporânea.

Desde que despontou na cena artística, há mais de duas décadas, Weiwei é uma das vozes mais críticas à violência da modernização calcada em abusos de poder na China.

Ele despertou a ira das autoridades de seu país com uma série de obras iconoclastas, entre elas fotografias em que aparece mostrando o dedo do meio a palácios de governo, quebrando vasos milenares ou pintando sobre eles o símbolo da Coca-Cola, em alusão a um país rendido ao consumo e à fúria capitalista.

Também denunciou a inépcia do poder público no resgate das vítimas do terremoto de Sichuan, tragédia de nove anos atrás que matou milhares de pessoas, a maioria crianças em suas salas de aula.

Sua raiva contra Pequim acabou despertando uma onda de perseguição, que levou à censura de seu blog, à demolição de seu ateliê, a um processo por sonegação fiscal e difusão da pornografia —ele postou uma série de nudes— e a uma prisão domiciliar da qual só saiu há dois anos, tendo depois se mandado para Berlim, onde está exilado.

Em São Paulo, onde veio conhecer a Oca, que vai abrigar sua mais nova mostra, Weiwei respira ares mais livres.

Além do baseado com Zé Celso e de um passeio à luz da lua cheíssima no terreno que o teatro Oficina disputa há quatro décadas com o Grupo Silvio Santos, ele conheceu os moradores de rua que tentam resistir acampados debaixo do viaduto Jaceguai.

Horas antes, ele jantava com convidados do presidente do Masp, Heitor Martins, em sua casa no Morumbi. Lá, ele contou que passou o Ano Novo num acampamento de refugiados na Grécia, assunto que virou sua maior obsessão no momento e alvo do documentário que ele estreia em breve no Festival de Veneza.

Uma convidada ali perguntou se ele achava que os refugiados eram as pessoas mais fortes no mundo hoje. Ele concordou em parte, dizendo achar que as crianças ocupavam esse papel. Seu filho Lao, de oito anos, e um sobrinho, aliás, vieram ao Brasil com o artista e encantaram quem teve a chance de conversar com eles em inglês "superfluente".

Mas Weiwei também se lembrou do espanhol, ao dizer que sonhava conhecer a América Latina, um lugar que parecia tão distante, porque seu pai, o poeta Ai Qing, perseguido pelo governo chinês durante a Revolução Cultural, foi um grande amigo do chileno Pablo Neruda, a quem dedicou uns versos.

Martins, o anfitrião da noite, elogiou a "profundidade com que ele olha para as coisas, a América Latina". "Ele é bacana, humano, simpático."

Quase sexy. "Ele é uma figura impressionante", disse o diretor artístico da Pinacoteca, Jochen Volz, que esteve na casa de Martins. "Ele tem um certo poder de sedução."

Humberto, metade do duo de designers formado pelos irmãos Campana, concorda. Ele recebeu Weiwei em seu ateliê no centro e conta que, mesmo que o artista estivesse mais calado e fechado no início, ele logo se soltou e "entrou no nosso universo". Seu filho também adorou mexer nas pilhas de bugigangas que formam os móveis caros e badalados da dupla.

Mas Weiwei também passou longe do luxo. O arquiteto Fabrizio Lenci, que levou o artista a um jogo do Palmeiras, conta que ele exigiu um "esquema povão". No Allianz Parque, fez questão de sentar perto dos tambores da torcida organizada e comprou tudo que os ambulantes vendiam.

"Ele ficou bem encantado, adorou quando desceu aquela bandeira grande", lembra Lenci. "Lá ele era um anônimo total, ninguém sabia quem ele era. Ele até curtiu isso."

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