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Fiéis negam trabalho forçado e dizem se sentir alvos de perseguição

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GERAL

Fiéis negam trabalho forçado e dizem se sentir alvos de perseguição

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Incomodados com a exposição na mídia e com a blitz do Ministério Público do Trabalho, fiéis do Ministério Evangélico Comunidade Rhema, em Franco da Rocha, negam acusações de maus-tratos e trabalho forçado e dizem se sentir perseguidos.

Ao menos 14 membros da igreja conversaram com reportagem na sexta (4) e domingo (6).

A Rhema permitiu que o jornal acompanhasse uma reunião de comunhão e o culto dominical, com a condição de que crianças não fossem fotografadas e apenas os pastores Juarez e Solange Oliveira e Paulo Santos fossem identificados com nome completo.

Repórter e fotógrafo estiveram acompanhados de alguém da administração da igreja todo o tempo.

"Sentimos que estamos sendo vítimas de perseguição religiosa", diz Marta, 48 (os fieis entrevistados têm nomes fictícios). Professora e pianista dos cultos, ela se juntou à Rhema há 27 anos, quando a igreja ainda ocupava um teatro antigo em Morro Grande, em Pirituba, zona norte de São Paulo.

EXPERIÊNCIA ESPIRITUAL

Marta já visitou a igreja em Spindale mais de uma vez a partir de 1996.

"Fomos com dinheiro contado, mas levamos um extra para as despesas da casa que nos recebeu. Eles recusaram, ficamos até constrangidos."

Ela relata que ajudava nos trabalhos da casa em que ficou, "como faria qualquer hóspede na casa de alguém quem não tem a menor obrigação de recebê-la".

"Limpar casa lá é fácil. Trabalho escravo é limpar minha própria casa no Brasil", brinca Rebeca, 38, funcionária de uma editora, que está na Rhema desde os 17 anos e passou dois meses na Word of Faith.

Segundo ela, o objetivo das viagens aos EUA é participar dos seminários religiosos. "O entusiasmo de lá é muito grande, é uma experiência espiritual muito forte."

TRABALHO COMUNITÁRIO

Como Rebeca e Marta, outros oito fieis relataram que é comum entre os membros da Rhema fazer mutirões para ajudar quem precisa também no Brasil.

"No ano passado, quando houve uma grande enchente em Franco da Rocha, limpamos escolas, centros de saúde, fizemos café, servimos como garçons", diz Samuel, há 22 anos na Rhema.

"Isso mostra que não somos sectários. Não somos uma seita", afirma o pastor Juarez.

"Estão distorcendo o que fazemos, demonizando nossas práticas", diz Solange sobre reportagens que falam em castigos físicos e psicológicos.

Judite, 34, está na Rhema desde os 5 e é filha de um dos ex-fiéis que relatou agressões, Carlos Moura.

"Meu pai ainda frequenta nossa casa, ficou chateado com a repercussão, não quer que isso cause divisão na família", diz a professora de ciências biológicas da rede estadual.

"Nunca houve nada disso. Na adolescência, tive a maior ajuda da igreja para não ir para caminhos errados."

"Estou indignada com esse absurdo, agravada, quase escandalizada. É uma ingratidão que não tem tamanho", afirma Sarah, 70.

Solange se diz surpreendida e triste com as declarações: "Não foram membros da igreja que disseram isso. Foram meus filhos, meus amigos, meninos que foram os melhores alunos de nossas escolas, que criamos aqui, com livros, comida, cortes de cabelo".

ESCOLA

A dona de restaurante Lia, 46, na Rhema há 18 anos, diz que os pastores são como seus pais e que também lamenta cada saída de um membro da igreja.

"Fui acolhida, me emprestaram uma casa, cuidaram da minha mãe. Quem faz isso? Só alguém que tem muito amor", diz a fisioterapeuta Abigail, 42, membro da Rhema há 22 anos.

"É um lamentar muito grande. Amigos que frequentavam nossas casas, jovens que foram meus alunos", diz Rebeca.

Como ela, várias fieis já deram ou dão aula do Colégio Cristão Rhema, onde estudam os filhos dos membros da igreja, cerca de 60 crianças.

"As que precisam são remuneradas. As que não precisam, são voluntárias."

O colégio, que vai da educação infantil ao ensino médio, tem mensalidades que variam de R$ 300 a R$ 500 e classes com de 4 a 6 alunos.

A escola foi o motivo de atração de ao menos duas famílias apresentadas por Solange. Uma das mães disse que o filho, com problemas auditivos, sofria bullying e foi acolhido pela Rhema.

Outra mãe contou estar insatisfeita com os valores que a filha aprendia na antiga escola. "Aqui, encontrei um ensino no qual confio."

No colégio, a Bíblia faz parte do cotidiano escolar desde os dois anos de idade. A Rhema não permite o uso de gírias ou palavrões, mulheres não devem usar decotes ou roupas curtas e a comemoração de aniversários ou do Natal é reprimida. "Queremos mostrar que todo dia é importante para demonstrar amor ou presentear o outro", diz Solange.

SEM FUTEBOL, ÁLCOOL OU PALAVRÕES

O futebol é criticado por sua relação com violência, bebida alcóolica e palavrões. "Preferimos vôlei e basquete." Assistir à TV também é desaconselhado —fiéis relataram nem ter o aparelho em casa.

Casamentos só são permitidos entre membros da igreja.

No culto do dia 6, cantaram no palco 23 moças e 12 moças aparentando ter de 20 a 35 anos. Foram seguidos por adolescentes —13 garotas e 12 garotos— e pelas crianças —12 meninas e 11 meninos.

Bebês de dois e três anos de idade também ocuparam os microfones, ajudados por suas mães. Uma delas, com 2,5 anos, cantou de memória todo um hino religioso.

Cerca de 150 fieis assistiram ao culto, que durou duas horas. "Apesar de tudo o que estamos enfrentando, estamos muito unidos", disse a pastora Solange na abertura.

"Não deve have haver murmúrios nem críticas. Ele vai nos fazer atravessar essa batalha."

TRAIÇÃO E SUPERAÇÃO

A perseguição também foi tema de Juarez, que leu um trecho de Timóteo, capítulo 3: "Os homens serão egoístas, avarentos, presunçosos, arrogantes, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios, sem amor

pela família, irreconciliáveis, caluniadores, sem domínio próprio, cruéis, inimigos do bem, traidores, precipitados".

Na pregação, o pastor Paulo Santos falou sobre a importância de sentir o amor de Deus, em vez de se preocupar apenas com a lei e as regras religiosas.

"Já tinha ouvido falar de evangélicos, mas nunca esperei encontrar pessoas tão acolhedoras", diz Talita, 41, dentista. De família católica e avó espírita, ela entrou para Rhema aos 17 anos. "São pessoas que não se importam com o que aparentamos ser e que vivem aquilo que pregam."

Foram seus colegas evangélicos que ajudaram a cuidar de sua avó doente, mesmo que ela fosse de outra religião, conta.

A força dos fieis também foi fundamental quando Talita perdeu um filho no quinto mês de gravidez.

"Ouço falar em escravidão, em surras. Aqui, levei muita surra, sim, mas só surra de amor", diz a fisioterapeuta Judite.

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