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Feministas com máscara de gorila abrem mostra no Masp e no interior de SP

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GERAL

Feministas com máscara de gorila abrem mostra no Masp e no interior de SP

SILAS MARTÍ

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quando Donald Trump venceu a corrida à Casa Branca, derrotando a candidata que seria a primeira mulher presidente dos Estados Unidos, as Guerrilla Girls viram no episódio o fim de uma era e um paralelo com o Brasil.

"Nossas últimas eleições não foram legítimas", diz Frida Kahlo, uma das artistas do coletivo americano. "Soube que no Brasil também houve uma espécie de golpe e que uma mulher foi trocada por um monte de homens velhos. É o último suspiro do patriarcado branco. Eles estão desesperados porque estão perdendo o poder e não vão desistir sem uma briga."

Frida, no caso, não é uma homônima da famosa pintora mexicana. Nomes de artistas históricas, aliados às máscaras de gorila que ela e suas companheiras usam em público, fazem parte do arsenal do grupo criado há mais de três décadas para lutar --sem nunca mostrar o rosto-- por uma presença maior das mulheres num mundo da arte dominado por homens, tanto nos acervos quanto no comando dos maiores museus.

No sotaque americano, a palavra espanhola "guerrilla" soa como o nome do primata que acabou virando o emblema do coletivo. Uma versão da célebre "Odalisca" de Ingres usando uma máscara do bicho estampa o cartaz mais conhecido dessas garotas, que perguntavam ali se as mulheres precisam mesmo estar peladas para entrar para a coleção do Metropolitan.

Esse pôster, que teve sua primeira versão em 1989 e vem sendo atualizado desde então, anunciava num outdoor em Nova York que só 5% dos artistas naquele museu da cidade eram mulheres e 85% das personagens femininas retratadas estavam nuas.

O quadro só piorou nas pesquisas realizadas depois. Mulheres artistas eram 3%, com um índice de nudez de 83%, em 2005, e 4%, sendo 76% peladas, há cinco anos.

"Esse trabalho é como um zumbi, teve uma série de vidas, uma depois da outra", diz Frida. "Mesmo que na arte contemporânea mulheres, gays e negros agora tenham mais voz, isso demora a ser refletido nas coleções dos museus. O interessante é que essa situação quase não muda."

Mas se os números não oscilam muito, houve uma mudança de comportamento.

Enquanto a primeira contagem no Metropolitan foi à revelia da instituição, daí a comparação com um ato de guerrilha, elas passaram depois a ser convidadas para fazer os levantamentos, tendo analisado a presença -e nudez- feminina não só em museus mas também nos times de artistas representados por galerias comerciais no mundo todo e até em clipes musicais.

Em setembro, o Masp vai se tornar o mais novo alvo das Guerrilla Girls, que fazem ali sua primeira retrospectiva no país, levando mais de cem cartazes ao mezanino do museu.

"Queríamos que elas trabalhassem aqui e tivemos um diálogo bem franco", conta Camila Bechelany, que está à frente da mostra. "Abrimos as portas do nosso acervo para trazer esse debate para cá."

Num levantamento inicial, com base só nas obras mostradas agora nas galerias do museu da avenida Paulista, o diagnóstico do grupo foi pouco melhor que o do Met --6% dos trabalhos ali foram realizados por mulheres e 68% das retratadas estão nuas.

"Isso quer dizer que há mais homens pelados lá", diz Frida. "Mas a situação ainda não parece ser das melhores."

E pode piorar, não só no Masp. Na visão das Guerrilla Girls, a raiz do problema está no fato de as instituições de arte no mundo todo terem se tornado dependentes demais das estratégias do mercado.

"É uma fantasia neoliberal acreditar que o mercado sozinho pode decidir que artistas e obras são relevantes", diz Frida. "A arte ficou cara demais. É controlada pelos super-ricos como um investimento, em geral coisa de homens brancos que costumam fazer parte da direção dos museus. O que perguntamos então é se eles contam a história da arte ou só a história do poder e das grandes fortunas."

No fundo, as Guerrilla Girls ampliaram o alvo. Em vez de atacar só os museus --sendo que suas obras já estão nas coleções do MoMA, do Whitney e do Pompidou, entre outros que tanto criticam--, elas agora querem tirar satisfação com os donos do dinheiro. É um reflexo da forma como a crítica institucional, movimento surgido na década de 1960 com artistas que passavam a atacar o sistema em que trabalhavam, evoluiu nas últimas décadas, enxergando a arte como manifestação indissociável dos fluxos do poder e da economia.

homens raivosos

Esses novos questionamentos ganham a forma de balcão de reclamações em outra exposição para a qual elas foram escaladas agora no Brasil. Na Frestas, mostra trienal de arte organizada pelo Sesc nesta semana em Sorocaba, no interior paulista, o coletivo terá um espaço onde o público pode registrar suas queixas.

Será um remake do que fizeram no ano passado na Tate, em Londres, onde visitantes deixaram 500 mil reclamações em menos de uma semana --a versão brasileira, refletindo os ânimos acirrados no país, vai durar quatro meses.

"Vamos invadir o Brasil para lutar contra os homens velhos, brancos e raivosos", diz Frida. "Não estamos mais falando só do mundo da arte. Exclusão e corrupção também partem de outros lugares."

Esses tempos de pós-verdade e fake news, aliás, viraram um terreno fértil para tudo isso. Daniela Labra, que está à frente da exposição em Sorocaba, conta que escolheu o trabalho das Guerrilla Girls pensando na "hipercirculação de memes e notícias" e na "impossibilidade de definir verdades na arte".

"O lugar da mulher mudou pouco no sistema da arte", diz Labra. "Esses trabalhos então lidam com tentativas de desconstruir modelos históricos."

GUERRILLA GIRLS

quando na Frestas, de 12/8 a 3/12, de ter. a sex., das 9h às 21h30; sáb. e dom., das 10h às 18h30; no Masp, de 29/9 a 14/2/2018, de ter. a dom, das 10h às 18h

onde Sesc Sorocaba, r. Barão de Piratininga, 555, Sorocaba (SP); Masp, av. Paulista, 1.578

Quanto grátis, no Sesc Sorocaba; R$ 30, grátis às terças, no Masp

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