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Reação a extremismo deve ser pacífica, diz bispo copta em visita ao Brasil

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GERAL

Reação a extremismo deve ser pacífica, diz bispo copta em visita ao Brasil

DANIEL AVELAR

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Para dom Kyrillos, bispo copta-católico do Egito, as minorias cristãs devem reagir "pacificamente" às crescentes ameaças de organizações terroristas.

"A intenção dos grupos terroristas é gerar conflitos entre minorias e maioria; entre população e governo. Por esta razão, os cristãos coptas reagem de maneira muito pacífica e, com toda tranquilidade, dizem que Deus os perdoa", disse.

Os cristãos egípcios, também conhecidos como cristãos coptas, são alvo de ameaças da milícia Estado Islâmico, que reivindicou explosões contra duas igrejas do país nas celebrações do Domingo de Ramos, em 9 de abril. Estes foram os últimos grandes ataques contra seus locais de culto, os quais têm se intensificado.

A comunidade cristã é uma minoria no Egito. Falantes de uma língua que remonta aos tempos dos faraós, eles correspondem a 10% de uma população de 90 milhões, segundo dados oficiais. Além disso, trata-se de um grupo economicamente marginalizado.

Dom Kyrillos se reuniu com o papa Francisco durante visita deste ao Egito no fim de semana.

Kyrillos veio ao Brasil para a assembleia da CNBB (Confederação Nacional dos Bispos do Brasil), concluída nesta sexta-feira (5) em Aparecida, no interior de São Paulo. No sábado (6), o bispo celebrará uma missa na capela ao pé do Cristo Redentor, no Rio.

Leia, abaixo, trechos da entrevista que ele concedeu por e-mail.

Que desafios cristãos do Egito têm enfrentado nos últimos anos?

A vida dos cristãos no Egito e há séculos nós, os cristãos, temos uma boa convivência com a população muçulmana.

Todos os egípcios são coptas, porque a origem do povo egípcio é copta. Todos eram cristãos, mas com a invasão dos árabes, uma boa parte se converteu ao islamismo. Ninguém pode distinguir quem é muçulmano ou quem é cristão. Somos todos egípcios, somos todos coptas.

Há cerca de 80 anos, o fundador da Irmandade Muçulmana, Hassan al-Banna, trouxe uma mentalidade de fazer o califado muçulmano, e transformar todos os países árabes como Estados unidos sob a lei do Islamismo. E essa lei não permite outras minorias.

Dessa forma, surgiram os jihadistas, os extremistas, que acabam promovendo intolerância e conflitos, com ataques às minorias.

Em 1952, após a revolução de Gamal Abdel Nasser, que se tornaria mais tarde presidente da República do Egito, os cristãos foram considerados cidadãos de "segundo grau", sem os mesmos direitos dos muçulmanos, tratados como uma "raça" inferior, e afastados dos cargos políticos na república.

Assim, fecharam as portas para que os cristãos não encontrassem outra saída a não ser migrarem para outros países onde houvesse liberdade, como na Europa ou na América.

A situação dos cristãos mudou sob os governos de Mohammed Mursi [deposto por um golpe em 2013] e de Abdel Fattah al-Sisi?

A eleição em 2012 do presidente Mohammed Mursi, membro da Irmandade Muçulmana, foi a derrota para a população do Egito, não somente para os cristãos, tratados com diferenças, mas para todos os muçulmanos.

Ele tinha a intenção de fundar o califado, um Estado islâmico, no Egito e assim acabaria com a liberdade para todos e a lei muçulmana prevaleceria por todos os cidadãos. Não haveria mais distinção entre cristão ou muçulmano moderado.

Com a eleição de Mursi, a Irmandade Muçulmana começaria a realizar o sonho iniciado com Hassan al-Banna, há 80 anos. Mohammed Mursi ocupava o cargo de presidente, mas quem dava as ordens no país era o líder religioso da Irmandade Muçulmana.

A partir de 2013, a Irmandade Muçulmana começa então a mudar as regras no Egito para que durante 500 anos eles pudessem permanecer no poder. Assim, Mursi, seguindo as orientações do líder religioso, começou a eliminar todas as pessoas que não eram ligadas à Irmandade Muçulmana e dar cargos políticos somente para quem era da Irmandade Muçulmana. Não importava se entendia ou não de política, bastava seguir a mesma mentalidade.

Só que nesta trajetória, Mursi cometeu muitos delitos e por conta de ações e pensamentos completamente fora da legislação do país, ele foi retirado do cargo e condenado à prisão. A popularidade dele também foi caindo, com a população revoltada por conta de leis que proibiam as mulheres andar de mãos dadas com homens, além de fechar boates e cafés.

Abdel Fattah al-Sisi, na época do Mohammed Mursi como presidente, foi nomeado o ministro da Defesa. Mursi pensou que o Sisi fosse próximo da Irmandade Muçulmana, mas na realidade ele não era. Sisi aconselhou Mursi a não cometer mais delitos, mas isso não ocorreu, e a população pediu intervenção das Forças Armadas para tirar o presidente. Assim, Sisi assumiu a Presidência do Egito, retirando Mursi do cargo.

Em 2013 ocorreram novas eleições e Sisi, a pedido do povo, concorreu e ganhou as eleições. Ele retomou a legislação anterior do país. Com mentalidade moderada, Sisi mantém uma boa relação com os cristãos. Pela primeira vez em anos, o papa da Igreja Copta-Ortodoxa faz parte do conselho do governo, formado também por outros grupos, não só os da Irmandade Muçulmana. Com a chegada de Sisi, o conselho do governo tem representantes de toda a sociedade.

Como os cristãos coptas reagem à ameaça crescente de organizações terroristas como o Estado Islâmico?

A intenção dos grupos terroristas é gerar conflitos entre minorias e maioria; entre população e governo. Por esta razão, os cristãos coptas reagem de maneira muito pacífica e com toda tranquilidade dizem que Deus os perdoa. Mas, claro, sendo uma minoria, os cristãos tomam cuidado.

As igrejas que foram atacadas pelos extremistas [em abril] foram atos isolados dos rebeldes, e o governo já iniciou a reformá-las.

Qual o significado para os cristãos do Egito da visita do papa Francisco?

A visita do papa foi muito importante e marcante na vida dos muçulmanos e especialmente dos cristãos. O papa demonstrou confiança no povo egípcio ao manter a sua viagem ao país logo após dois atentados às igrejas e sequer aceitou um carro blindado, porque acreditou no povo, na segurança do país e que há possibilidade de viver de maneira pacífica no Egito.

Durante as 26 horas em que o Papa permaneceu no Egito, ele mandou mensagens para toda população egípcia, seja católica, ortodoxa, muçulmanos ou extremistas. Francisco visitou a mesquita e faculdade Al Azhar, que ensina a religião muçulmana, onde ressaltou a importância do gesto do imã maior dos sunitas, Ahmed el-Tayeb, que recentemente convidou todos os líderes religiosos do mundo para um encontro de fraternidade.

Além disso, o Papa recriminou qualquer tipo de violência em nome de Deus ou em nome de Alá. Isso não é religião.

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