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Educação vira tema político na Argentina

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GERAL

Educação vira tema político na Argentina

SYLVIA COLOMBO

BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Não muito longe do escritório de Esteban Bullrich, 47, no Ministério da Educação da Argentina, na região central de Buenos Aires, cerca de 400 mil pessoas (segundo organizadores) participaram de uma marcha que culminou, na quarta-feira (22), num ato na Praça de Maio, diante da Casa Rosada, sede do governo.

Os manifestantes eram professores da rede pública que há mais de três semanas fazem greves e atos que vêm atrasando o início do ano escolar em várias províncias.

O movimento se transformou no principal problema político atual do presidente Mauricio Macri. "É algo que não me deixa dormir", desabafou ele a um programa de televisão no último sábado.

Não é por menos. Num momento em que sindicatos organizam uma greve geral para o dia 6, por conta dos 40% de inflação, do salto do desemprego a 8% e do aumento das contas de água e eletricidade, a imagem de professores nas ruas com cartazes dizendo "não somos escravos" não ajuda em nada a melhorar a imagem da gestão.

Desde o início do ano, a expectativa dos argentinos em relação ao governo caiu dez pontos, para 49%, e a imagem pessoal de Macri, 4, para 53% segundo o instituto Isonomia.

Os professores pedem aumento de 35%, próximo à inflação, mas o Estado fixou o teto do reajuste em 18%. Hoje, o salário mínimo de um docente na Argentina é de 9.672 pesos (R$ 1.940).

"Estou otimista quanto à resolução deste conflito salarial e mantendo o foco nas nossas metas", disse Bullrich em entrevista à reportagem.

A toque de caixa e sob ordens de Macri, ele apresentou o resultado da sondagem Aprender, que avalia o nível dos estudantes argentinos.

Também anunciou um projeto de lei com 180 metas para o setor. Entre elas, a ampliação da jornada escolar de 4 para seis horas, o ensino de mais idiomas, a acessibilidade à internet e uma melhor formação dos docentes.

Há uma avaliação no governo de que, se o conflito com os professores não for resolvido logo, pode prejudicá-lo nas eleições legislativas de outubro, em que se renova boa parte do Congresso.

"Estamos aumentando os investimentos na área de educação em 40%", diz Bullrich. Isso sem elevar a porcentagem destinada à área no orçamento nacional, que é de 6%. "O valor sempre foi este, mas, durante o kirchnerismo, não foi respeitado. Parte desse recurso era desviado por autoridades locais a outros fins."

Indagado sobre como via os ajustes propostos pelo governo brasileiro para enfrentar a crise - como um deles que abre margem ao congelamento dos investimentos em educação por 20 anos - Bullrich disse: "congelar o investimento na educação, num país que busca crescer, é congelar o crescimento e o progresso. Não falo só do Brasil, vale para qualquer país."

Buenos Aires, onde Bullrich foi secretário, destoa positivamente do resto do país nas avaliações. Já os resultados gerais ele qualifica como preocupantes. "Em matemática, 7 de 10 que terminam o ensino médio têm desempenho abaixo do satisfatório, e metade têm problemas para compreender um texto."

E acrescenta, "isso num país como o nosso, que foi referência para presidentes dos EUA e que é o país latino-americano com mais prêmios Nobel na área científica [três] é algo que nos envergonha".

De fato, políticas educacionais implementadas no fim do século 19 fizeram da Argentina referência na região e um dos países pioneiros em erradicar o analfabetismo, antes mesmo de muitos da Europa. Com sucessivas crises econômicas a partir dos anos 1970, a situação se deteriorou.

O país não fez parte do último Pisa, prova internacional de educação, porque a amostragem não foi considerada suficiente. Mas Buenos Aires entrou, ficando em primeiro lugar na América Latina.

"Queremos que esse bom desempenho seja nacional. Vamos começar investindo nas 3.000 escolas pior avaliadas", diz o ministro.

Tudo isso, porém, depende de os professores voltarem às salas de aula. Num ato apelativo, Macri postou nas redes sociais, nos últimos dias, a foto de um professor dando aulas ao ar livre, no dia seguinte ao bombardeio de Hiroshima. E pediu que o diálogo sobre os salários continue, mas com as aulas em curso.

A categoria teme perder poder de pressão se encerrar os atos. Nova rodada de negociações ocorre nesta semana.

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