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Aprender a interpretar imagens é um ato político, diz João Moreira Salles

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Aprender a interpretar imagens é um ato político, diz João Moreira Salles

GUILHERME GENESTRETI, ENVIADO ESPECIAL

BERLIM, ALEMANHA (FOLHAPRESS) - Um dos momentos mais representativos de "No Intenso Agora", documentário de João Moreira Salles que estreou mundialmente no Festival de Berlim, retrata o líder estudantil Daniel Cohn-Bendit aceitando uma viagem paga por uma revista de variedades poucos dias após ele ter incendiado as ruas de Paris no levante que ficou conhecido como Maio de 1968.

O que era espontaneidade insurgida contra um modelo burguês de sociedade acabara cooptado, deglutido pelo próprio sistema contra o qual os universitários franceses lutavam.

A partir desse trecho, é inevitável fazer uma alusão com o que houve no Brasil a partir dos protestos de junho de 2013, que de passaram a comprar uma agenda conservadora.

"Eu olhava para aquelas manifestações no Brasil e achava tudo maravilhoso, mas não entendia a agenda e ficava melancólico: como toda a paixão, pensava que aquilo ia acabar", diz o documentarista à reportagem. Ele editava o material enquanto as ruas das capitais brasileiras ardiam.

Em 1968, como mostra o filme, os franceses viram a mão de ferro do presidente De Gaulle esmagar as demandas da insurgência juvenil, mas pautas difusas e laterais vingaram: emancipação feminina, modernização dos costumes etc.

"Imagino que algo semelhante pode acontecer no Brasil", crê o documentarista. "O que os manifestantes queriam não se concretizou: ainda temos o mesmo Congresso Nacional contra o qual saíram às ruas. Mas será que a intensidade e o rigor da Lava Jato não seriam uma resposta à reivindicação por decência política daqueles protestos?"

Mas "No Intenso Agora" não se pretende uma obra enciclopédica sobre os protestos de Maio de 1968; eles são apenas o mais longo dos quatro eixos que guiam o documentário.

Completam o documentário imagens anônimas da invasão soviética a Praga, o enterro do estudante Edson Luis no Rio (ambos no turbulento 1968), e os registros feitos pela mãe do cineasta na China maoísta em 1966.

Têm em comum o fato de que foram captadas por terceiros e ganharam sentido e organicidade na ilha de edição, onde Moreira Salles contou com os préstimos de Eduardo Escorel e Laís Lifschitz.

O último dos eixos temáticos -a viagem à China durante a Revolução Cultural-foi o gatilho para o projeto, segundo o diretor, que descobriu as imagens enquanto trabalhava em "Santiago" (2007).

"No Intenso Agora" é, como resume Moreira Salles, uma investigação sobre a natureza da imagem -o que se depreende dela, quem a realiza, como é possível interpretá-la.

"Sou cético quanto à capacidade que o cinema tem de alterar o mundo, mas tenho uma profunda fé nos filmes que têm a missão de mudar o cinema. Acho que este é o papel do cineasta: não tratar as imagens de maneira inocente. Aprender a vê-las é um ato político."

A interpretação do que enche a tela aparece, por exemplo, em registros do Maio de 68. Como narra Moreira Salles durante a obra, quando aparecem negros nos vídeos, eles estão sempre nas beiradas do quadro, sempre discretos.

"O que aquilo me diz? Me diz que aquela foi uma revolução de garotos burgueses e que não incorporou populações marginalizadas."

"No Intenso Agora" é uma das 12 obras brasileiras que estão na programação do Festival de Berlim -um recorde.

O jornalista GUILHERME GENESTRETI se hospeda a convite do Festival de Berlim

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