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'Retrocessos são comuns e Colômbia deve persistir', diz negociador de paz

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GERAL

'Retrocessos são comuns e Colômbia deve persistir', diz negociador de paz

- Atualizado em 15/10/2016 11:25

SYLVIA COLOMBO, ENVIADA ESPECIAL

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Para o irlandês Eamon Gilmore, 61, enviado da União Europeia para acompanhar e oferecer apoio às negociações de paz entre o governo colombiano e as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), o resultado do plebiscito do último dia 2, em que os colombianos rejeitaram o acordo assinado entre as duas partes, não é necessariamente uma má notícia.

"Já vi esse tipo de retrocesso acontecer quando trabalhamos no acordo de paz na Irlanda do Norte, nos anos 1990. Esses processos são assim, construídos com avanços e retrocessos. O conselho é persistir, e a Colômbia vem fazendo isso", disse.

Gilmore, que foi líder do partido Trabalhista irlandês, vice-premiê e chanceler da Irlanda, esteve no Rio de Janeiro na sexta (14) para participar da 13ª Conferência de Segurança Internacional, promovida pela Konrad Adenauer Foundation e o Cebri (Centro Brasileiro de Relações Internacionais).

Recém-chegado de Havana, onde esteve na primeira rodada de conversas entre os negociadores do governo colombiano e as Farc após o resultado do plebiscito, Gilmore concedeu a seguinte entrevista à Folha.

Folha - O sr. vê semelhanças entre os casos colombiano e irlandês?

Eamon Gilmore - Sim, apesar de se tratarem de países muito diferentes e de conflitos distintos quanto a origem, natureza e escala, há semelhanças.

A principal que eu senti foi justamente quando soubemos do resultado negativo do plebiscito. Todas as partes envolvidas se manifestaram no sentido de persistir. E foi assim que agiram os envolvidos no processo da Irlanda do Norte ao longo dos anos. Não deu certo de uma só vez.Fazer a paz não é simples, você tem que construi-la, e ela contém muitos itens que não são apenas o silenciar dos fuzis.

Eu fui ministro do governo irlandês nos anos 1990, tivemos um cessar-fogo com o IRA (grupo paramilitar que promovia atentados e reivindicava a independência da Irlanda) em 1994, depois ele foi quebrado, com bombas sendo jogadas no centro financeiro de Londres, e só chegamos ao nosso acordo final (Good Friday Agreement) em 1998.

Foi um caminho longo, com assuntos tidos como resolvidos tendo de ser revistos. A principal lição que tiro daquela experiência é que é preciso persistir, ter paciência e admitir que, algumas vezes, as coisas vão dar errado e que o inesperado vai acontecer.

Folha - O sr. disse isso aos negociadores colombianos?

Eamon Gilmore - Sim, disse que eles não podiam perder de vista o que realmente estavam tentando alcançar. Que é levar a violência a um fim, ter uma sociedade pacificada em que os objetivos sejam atingidos por meios democráticos. A Colômbia está nesse momento agora.

Folha - Na Colômbia, a maioria das pessoas que votou pelo "não" temia especialmente a impunidade e a participação dos guerrilheiros na política. Foi parecido no caso irlandês?

Eamon Gilmore - Eu entendo perfeitamente essas preocupações, porque eu já as vi lá. No acordo a que chegamos havia o compromisso de que pessoas que haviam cometido crimes muito graves iriam para a cadeia, mas seriam liberados depois de apenas dois anos.

Muitas pessoas acharam isso difícil de aceitar. Por que alguém que colocou bombas em shoppings centers, que matou crianças e inocentes ficaria na cadeia tão pouco tempo, enquanto alguém que cometeu um crime dito comum pagaria uma pena mais alta?

Mas é assim. Esse é o compromisso que tem de ser assumido se o que se almeja é terminar um conflito, fazer com que as armas sejam entregues. É um compromisso difícil de assumir, de entender e de aceitar. Por isso leva tempo e tem avanços e retrocessos.

Acho legítimo as Farc buscarem participação política, só que para isso é preciso renunciar à violência. Se a guerrilha assume esse compromisso, considero legítimo, ainda que entenda que muitas pessoas não aceitem.

Folha - No caso colombiano, a polarização política do país entre apoiadores do presidente Juan Manuel Santos e os do ex-presidente Álvaro Uribe influenciou muito o resultado. O sr. acha que prejudicou a votação?

Eamon Gilmore - É verdade que a Colômbia está muito polarizada, mas não vejo como uma disputa dessa natureza não envolva um fator político muito latente. Tivemos isso lá também.

Hoje, o partido que é majoritário na Irlanda do Norte, o Unionista Democrático (DUP) é um partido que, a princípio, se opôs ao acordo, mas que depois ajudou a construir a paz e hoje mantém os compromissos assumidos.

Essas coisas sempre são políticas. E creio que os uribistas estão se mostrando também construtivos nesse processo, é preciso reforçar que representam boa parte dos colombianos. Com o tempo a coisa vai mudando. O que não se pode fazer é fechar os canais de diálogo.

Folha - Mas o sr. não acha que o diálogo só começou agora que o "sim" perdeu? Santos e Uribe não se falavam há anos.

Eamon Gilmore - Pode ser, mas o fato é que agora estão conversando, talvez essa derrota tivesse mesmo de ter ocorrido para provocar esse diálogo. O que mais me impressionou no dia do plebiscito foi que as respostas de Santos, de Uribe e das Farc, imediatamente, foram muito construtivas e ponderadas.

Nos três casos eles demonstraram estar pensando no futuro, talvez mais do que estavam antes. Não houve um senso de derrota de um lado e um de triunfalismo de outro. Aceitou-se o resultado e agora eles estão lá tentando achar um jeito de ir adiante. Houve muito progresso nessas duas semanas, com as novas propostas trazidas pelos uribistas e Santos abrindo-se a dialogar com várias forças.

Folha - Mas o sr. não acha que o mundo de hoje é muito diferente daquele dos anos 1990, no sentido de ser menos tolerante? Não crê que o Brexit, o "não" na Colômbia, o surgimento da candidatura Trump, os nacionalismos no Leste Europeu estão todos de certo modo conectados e relacionados com um cansaço das pessoas com velhas formas de se fazer política?

Eamon Gilmore - Definitivamente o de hoje é um mundo completamente diferente e estou de acordo com essa possível conexão. O que explica esses fenômenos do mundo moderno é algo que transcende fronteiras nacionais e continentes. Trata-se de um aumento da insegurança pessoal de todos os cidadãos. Surge do impacto da globalização. As pessoas têm medo de perder seus trabalhos, os jovens sentem que não terão as mesmas oportunidades que seus pais tiveram, a pobreza se acentua em locais de conflito, o que leva às migrações, que causam mais insegurança nos lugares onde chegam os refugiados.

Ou seja, o sentimento de insegurança pessoal se generaliza em vários países. Junto a isso, há um aumento de uma sensação de impotência de reação, de falta de recursos dos cidadãos para saírem de uma situação adversa.

Sim, creio que essas coisas estão conectadas e que o "não" da Colômbia pode ser parte disso. Por outro lado, também creio que o processo de paz colombiano tem potencial para dar certo e ser uma espécie de contra-exemplo.

Folha - Por que?

Eamon Gilmore - Porque um novo acordo, se for feito agora e incluindo as manifestações dos que estavam contra, terá mais apoio da sociedade e poderá criar uma oportunidade para tratar dos outros problemas do país —outras guerrilhas, narcotráfico, desigualdade.

O mundo observa a Colômbia com atenção nesse momento exatamente por causa disso. Porque a Colômbia tem nas mãos a oportunidade de inspirar, de motivar, de encorajar quem está enfrentando conflitos em outras partes do mundo e não sabem como leva-los a um fim de forma negociada, pacífica.

Folha - O sr. está otimista, então?

Eamon Gilmore - Sim, otimista, mas também realista. Sei que não vai ser fácil, há riscos e o principal deles, nesse momento, é que esse novo diálogo se prolongue demais. Isso pode travar o processo e abre a possibilidade de recomeçarem hostilidades. É um processo que tem de ser levado com cuidado. Mas todos os sinais que vi em Havana após o plebiscito é que há uma vontade, entre os que aprovaram e os que desaprovaram o acordo, e entre as Farc. Portanto, a urgência é revisar o texto. Se for produzido um novo acordo com essas três forças, terá ainda mais chance de êxito para ser implementado do que o anterior.

Folha - O Nobel da Paz a Santos ajuda ou é apenas simbólico?

Eamon Gilmore - Creio que o Nobel foi dado a Santos como um sinal da comunidade internacional de que esse processo de paz importa para o mundo todo. Você sabe, presidentes são seres humanos.

Por mais que tenha reagido positivamente, certamente Santos sentiu a derrota no plebiscito, e isso poderia tê-lo desanimado. Tenho certeza de que esse prêmio é um encorajamento.

*A jornalista viajou a convite da organização do evento

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