Comunique à Redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Células-tronco: esperança e controvérsia

Loading...

CIêNCIA

Células-tronco: esperança e controvérsia

Sangue do cordão umbilical fica armazendo em tanques a menos 196 º C

O estudo das células-tronco desencadeou uma corrente de possibilidades no meio científico e ressuscitou a esperança de muitos pacientes. O conhecimento dessa área da ciência veio à tona para muitas pessoas com a ovelha Dolly, primeira clonagem de um mamífero, feita em 1996. Quinze anos depois do ‘boom’ de especulações, a coleta de sangue do cordão umbilical e placentário, rico em células-tronco hematopoiéticas que dão origem às células sanguíneas, vem ganhando espaço entre as famílias.


As células do sangue do cordão umbilical, assim como as da medula, podem curar pacientes afetados por leucemias, talassemias, anemias, entre outras doenças da medula. Por precaução, a empresária apucaranense Alessandra Cordeli Vieira, 36 anos, e o marido, o engenheiro ambiental Amarildo Vieira, 43, que residem em Borrazópolis, optaram em fazer o ‘seguro biológico’ do filho Enzo, 10 meses, ainda nos primeiros meses da gestação.

/imgs/portal//1302-alessandra.jpg

O casal investiu R$ 6 mil reais para armazenar por dez anos o sangue do cordão umbilical do herdeiro. “Fizemos pensando no futuro. Não temos nenhum caso na família de leucemia ou outras doenças do sangue. Agimos por precaução mesmo. Não queremos usar jamais, mas caso precise está lá. É como um seguro de vida,” compara.
 

A alternativa para um possível transplante de medula também levou a apresentadora de tevê Isadora Kummel Perez, 33 anos, e o corretor de seguros Marco Aurélio Perez, 33, de Apucarana, a optar pelo congelamento do material genético do cordão-umbilical da filha Manuela, 6. “Somos movidos a resguardar o futuro e a tranquilidade da nossa filha”, frisa a mãe.
 

Na família de Isadora já foram registrados dois casos de câncer. O pai e o irmão da apresentadora tiveram a doença, o que serviu como agente motivador para a adoção do procedimento.
 

A co

/imgs/portal//1202-capa10.jpg
leta de Manuela foi a primeira realizada em Arapongas. Eles pagaram R$ 8 mil pelo procedimento, incluindo o armazenamento por 10 anos. “Com o material genético da Manuela guardado, ficamos mais tranquilos. Se tivermos outro filho, faremos tudo de novo”, assegura o pai.
 

O PROCEDIMENTO


A técnica, disponível principalmente por laboratórios particulares, tem despertado o interesse no congelamento do sangue do cordão umbilical e da placenta. A Cryogene, primeira empresa do ramo a atuar no Paraná, localizada em Curitiba, iniciou as coletas em 2004. Em sete anos de atuação a procura aumentou 60%, segundo a bióloga especialista em genética humana Madalena Okoinski, 37.
Ela explica que a coleta só pode ser feita durante os primeiros 10 minutos após o parto, para garantir a qualidade das células. “É retirado do cordão umbilical e placenta de 70 a 120 ml de sangue. Depois, já em laboratório, separamos as células e congelamos em tanques de nitrogênio líquido a menos 196º Celsius”, conta. Ainda segundo a especialista, até o momento, o material genético pode ficar congelado por tempo indeterminado. A célula congelada usada há mais tempo tinha 15 anos.


De acordo com a bióloga, nos sete anos do laboratório, nenhum paciente precisou recorrer ao material genético congelado.
Nos bancos privados, o único beneficiado é o bebê. Caso um irmão venha a precisar de tratamento com células do cordão umbilical, precisará de autorização judicial. A compatibilidade, no caso dos mesmos pais, é de 25%.


BANCOS PÚBLICOS
 

Além dos bancos de armazenamento privados existem os bancos públicos, onde o doador não é dono do material genético. No Paraná, foi inaugurado em 2001 o Biobanco do Hospital das Clínicas (HC) da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba, o único do gênero no Estado.
 

O diretor do Biobanco do HC Giorgio Baldanzi, 53, explica que a unidade coleta apenas sangue do cordão umbilical e placentário de pacientes que têm histórico familiar de doenças genéticas e leucemias. Segundo ele, o congelamento no caso de leucemia é necessário porque atinge a medula, impedindo o transplante.
 

O Biobanco realiza, em média, 10 coletas por ano. De acordo com Baldanzi, o número de coletas tende a ser ampliado também a gestantes que não têm históricos de doenças. “Até o fim deste ano vamos implantar um banco público de coleta de sangue de cordão umbilical e placentário”, espera. Para isso, ele diz que ainda faltam alguns ajustes estruturais e profissionais especializados. “O Ministério da Saúde tem enviado os recursos, mas faltam enfermeiros e médicos capacitados para fazer a coleta”, pontua.
 

PRÓS E CONTRAS


A bióloga Mariane Secco, 27, do Centro do Genoma Humano da Universidade de São Paulo (USP), referência na América Latina em pesquisa em células-tronco, alerta que as coletas do sangue do cordão umbilical e placentário não são a salvação para todos os males. “A quantidade de células coletadas no sangue não é suficiente para tratar um paciente com mais de 50 kg. Também não podem ser expandidas porque perdem suas características muito rápido”, pondera. Ela ressalta ainda que a chance de vir a usar o material genético é muito baixa, algo em torno de 1 para 20 mil.


Entretanto, a doutoranda em genética avalia que iniciativa é válida. “Estamos só no início das pesquisas. Hoje sabemos que com essas células podemos fazer o transplante de medula, curar anemias, entre outras doenças”, assegura.


Apesar de poucos, Mariane aposta nos bancos de sangue de cordão umbilical e placentário da rede pública, porque quase 95% da busca por transplantes desse tipo acontecem por doenças genéticas e leucemias.


Diferente dos particulares, os bancos públicos também não cobram anuidade. O diretor do Biobanco do HC Giorgio Baldanzi afirma que não é preciso fazer sacrifícios econômicos para deixar armazenadas as células-tronco do filho. “Só é indicado realmente para quem está no topo das possibilidades”, diz.


Estudos estimam que com 4 mil amostras coletadas e armazenadas em uma determinada região, por exemplo, é possível encontrar material compatível para qualquer pessoa. Em relação à medula óssea, a chance é bem menor, de uma em cada 20 mil, de achar um doador compatível. Quanto mais doações os bancos públicos tiverem, mais pessoas serão beneficiadas e sem custo.


NOVAS TERAPIAS


Além das células do cordão umbilical e placentário, o corpo humano pode ser considerado uma verdadeira ‘fábrica’ de células-troco. Estudos recentes mostram que a polpa de dentes de leite é rica em células-tronco adultas, com capacidade de originar osso, músculo, gordura, cartilagem e neurônios, quando expandidas em laboratório. Não há coleta ou estoque em laboratórios, segundo a doutoranda Mariane, que recolha essa material, com grande potencial de reabilitação.


Radovan Kojovic, 71, fundador e diretor do Programa Avançado de Biologia Celular Aplicada à Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sustenta que para outras terapias, as "células mesenquimais" são mais relevantes, podendo ser isoladas de todos os tecidos vascularizados adultos, ou seja, depois do nascimento. Para o pesquisador, o tecido adiposo é particularmente indicado pela facilidade de acesso e disponibilidade. “Uma lipoaspiração ou uma retirada de fragmento de tecido adiposo pode ser uma excelente fonte”, argumenta. Segundo ele, essas células poderão ser usadas para terapias de cirurgias plásticas e reparadoras, ortopedia, reparo de músculos, inclusive esfíncteres (incontinência urinária ou anal), geralmente em resolução da degeneração e envelhecimento tecidual.
 

Quando aos pacientes vítimas de acidentes de trânsito, com lesões antigas, Bojovic diz que a Medicina ainda não oferece tratamentos com resultados significativos. “A regeneração de uma lesão antiga é impedida pela formação do calo fibroso no local. Trabalhamos nessa área e, no futuro, devemos ter notícias melhores”, espera.
 

Kojovic salienta que tem propostas para terapia da lesão aguda, logo depois do acidente. “São tratamentos muito mais interessantes para lesões de trauma ósseo, da cartilagem, tendão e músculo, tanto em trauma geral quanto em medicina esportiva”, avalia.

 

“Usam a Medicina para picaretagem”


/imgs/portal//1302-marcos-usso.JPG
O empresário apucaranense Marco Antônio Usso, 43 anos, perdeu parte dos movimentos há 20 anos, durante uma prova do Campeonato Brasileiro de MotoCross. Ele havia sido cinco vezes campeão paranaense de Motocross. O ex-piloto precisou reaprender a viver depois do dia 21 de abril de 1991. Foram 105 dias de cama depois do acidente. Após esse período vieram as sessões de fisioterapia e a busca por tratamentos para melhorar a sua locomoção.


Hoje, Marquinho, como é mais conhecido, é cadeirante, mas leva uma vida quase no normal no âmbito da acessibilidade. Ele consegue subir e descer escadas com muletas e dirige seu próprio carro. “A melhora na locomoção com muletas veio depois de um tratamento fisioterápico que fiz na Alemanha em 2000 e 2001. Foi um mês em cada ano”, recorda.


Sempre ligado nas novidades da Medicina, ele já procurou tratamento com células-tronco, mas optou por não fazer. “No Brasil há muita pesquisa, mas não está disponível para tratamento. Já na China há tratamentos, mas sem comprovação científica. Cobram 100 mil dólares sem dar garantias. Usam a Ciência para picaretagem, tendo o lucro como único objetivo”, observa. Ele se inscreveu no Centro do Genoma Humano da (USP) há cinco anos para participar de pesquisas com células-tronco em lesões, mas ainda não foi chamado.
 

Consciente das possibilidades científicas e do seu próprio corpo, o empresário não descuida dos exercícios físicos. Ele faz duas vezes por semana natação e fisioterapia e três vezes musculação. “Tenho a necessidade de manter os músculos em movimento. Assim, o dia em que estiver disponível essa tecnologia estarei preparado”, espera.
 

Além do cuidado com o físico, o apoio da família foi determinante, segundo ele. “Era casado há pouco tempo e tinha uma filha pequena, a Ana Beatriz, de seis meses. Eles me motivaram a buscar os melhores tratamentos”, conta.
 

Depois de seis anos, ele e a esposa Andrea decidiram ter outro filho, Marcos Vinícus, para complementar a vida do casal.

O portal TNOnline.com.br não se responsabiliza pelos comentários, opiniões, depoimentos, mensagens ou qualquer outro tipo de conteúdo. Seu comentário passará por um filtro de moderação. O portal TNOnline.com.br não se obriga a publicar caso não esteja de acordo com a política de privacidade do site. Leia aqui o termo de uso e responsabilidade.

Últimas Notícias