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Agricultura orgânica perde espaço na região norte do Paraná

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REDUÇÃO SIGNIFICATIVA

Agricultura orgânica perde espaço na região norte do Paraná

Agricultor Célio Ferracioli e o genro Wellington Douglas Nunes mostram estufa de tomates orgânicos  | Foto: Delair Garcia

Marilândia do Sul, referência na produção de orgânicos no Vale do Ivaí (norte do Paraná), enfrenta uma drástica redução de propriedades certificadas. Quando o projeto de agricultura orgânica foi lançado no município em 1998, 60 produtos aderiram a proposta. Dezessete anos depois, apenas cinco continuam na atividade. O número representa uma queda de 91% neste período. Situação extremamente inversa diante das projeções do programa Organics Brasil, que estima que o mercado de orgânicos cresceu 25% em 2015 e vai bater a marca de 30% neste ano, o que representaria um faturamento de R$ 3 bilhões.

Na região, Apucarana também busca implantar a técnica. Em 2014, a Prefeitura, através da Secretaria de Agricultura, capacitou 32 produtores no cultivo de orgânicos, porém ainda não foram certificados. Segundo informações extraoficiais, na última reunião realizada no final de 2015, dez agricultores já haviam desistido de permanecer no projeto.

Para o engenheiro agrônomo Romeu Suzuki, de Rolândia, que iniciou o projeto em Marilândia do Sul, a desistência dos agricultores esbarra na escassez de mão de obra no campo, capacitação e dedicação integral à produção. Outra queixa dos produtores é a dificuldade em conseguir a certificação de empresas e institutos reguladores. O especialista em Agroecologia explica que a certificação varia, em média, de 1 a 4 anos. O fator determinante do tempo de espera é a desintoxicação do solo.

Suzuki explica que, em geral, a descontaminação do solo leva dois anos. Depois deste período, o solo, visto como um “organismo vivo” na agricultura orgânica, precisa de mais cinco anos para conseguir restabelecer seu equilíbrio bioquímico natural. Somente após essas etapas, que o produtor consegue estabilizar de vez a produção, o que demanda muita paciência e aprendizagem. Ao invés de agrotóxicos, adubos químicos, antibióticos ou transgênicos, somente produtos naturais.

“Os produtores precisam de muita assistência, capacitação e também ser autodidata. É preciso aprender a observar a natureza e ainda trocar experiências com outros agricultores”, afirma. O engenheiro agrônomo avalia ainda que a manutenção do agricultor na atividade demanda também de mão de obra, uma vez que o controle de ervas daninhas, fungos e pragas é feita manualmente. “É um novo jeito de pensar a agricultura. Antes, no processo convencional, o agricultor recebe tudo ‘mastigadinho’. Na orgânica, é preciso desenvolver o senso de observação e fazer tudo manualmente”, reforça.

Para ele, outro fator que influência é a própria formação universitária. “Há apenas cinco anos passou a agricultura orgânica passou a ser ensinada dentro das universidades”, pontua. Isso restringe a disseminação da prática, segundo ele, além da presença maciça de empresas fabricantes de agrotóxicos e insumos químicos. “Por isso, estamos remando contra a maré. Porém, precisamos repensar a agricultura, porque contamina não só o solo, mas as nascentes”, alerta. O secretário de Agricultura de Marilândia do Sul, Laudemir Pires, também faz as mesmas observações de Suzuki. “ A falta de mão de obra é uma das grandes barreiras, porque a agricultura orgânica não faz uso das mesmas técnicas da agricultura convencional”, assinala.



“Mais que um negócio, uma causa”, afirma produtor

Após 25 anos atuando na agricultura convencional, Célio Ferracioli, 60 anos, apostou numa nova modalidade, a orgânica. No projeto desde o início, ele e a família atualmente são um dos maiores produtores certificados de alimentos orgânicos no município. Por mês, ele colhe 4 toneladas, que já tem destino certo, distribuidores de Maringá, Londrina e supermercados de Arapongas e uma frutaria de Apucarana. Na propriedade dele em Marilândia do Sul, três alqueires são dedicados à agricultura orgânica, onde são produzidas mais de vinte espécies, entre folhagens e leguminosas, além de milho e tomate.

Para Ferracioli, a agricultura orgânica, depois que a produção se estabiliza, proporciona um bom retorno. Produtos orgânicos são vendidos, em média, 30% mais caros que os convencionais. Outro detalhe, segundo Ferracioli, é que o preço não costuma variar durante o ano. Além da questão financeira ser atrativa, um motivo foi determinante para que ele resolvesse mudar de área: a saúde da família. “Eu, por exemplo, estava com artrose, atrite e ácido úrico. Depois que não mexi mais com agrotóxico, minha saúde melhorou. O veneno estava me prejudicando”, revela.

Atualmente, ele conta com o empenho de quase toda a família, inclusive, alguns que saíram do sítio resolveram voltar. Ao todo, são dez pessoas trabalhando, que vai desde a lida nas lavouras até a distribuição. “No início era muito difícil. Eu mesmo demorei dois anos para deixar de pensar em veneno quando surgia uma praga. Hoje em dia, nem penso mais em voltar para a agricultura convencional. A gente não está só vendendo produtos, estamos levando mais saúde para as pessoas”, acredita. “Para mim hoje, a terra não é só suporte. A terra é vida”, diz Ferracioli.

Outro agricultor que passou a pensar assim é Luiz da Conceição Farias, 67. Ele, que durante 15 anos trabalhou na agricultura convencional, também aderiu ao programa desde o início. “No início, eu não acreditava que daria certo, mas deu. Por isso, é essencial a conscientização e a capacitação do produtor”, comenta.

Por mês, com ajuda de um irmão, ele produz cerca de 1,6 tonelada. Seu Luiz levou dois anos para conseguir a certificação e avalia que a fiscalização também é rígida. “Duas vezes por ano, eles vêm na propriedade para analisar. Nós precisamos anotar tudo o que usamos tintim por tintim”, diz. Apesar de ainda não se acostumar com as anotações, ele garante que nem pensa em deixar a agricultura orgânica.

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